sexta-feira, 27 de março de 2015

A solidão dos Moribundos

Fichamento: Nobert EliasA Solidão dos Moribundos seguido de Envelhecer e Morrer (Zahar)

1 [p.7] O fim da vida humana, que chamamos de morte, pode ser mitologizado pela ideia de uma outra vida no Hades ou no Valhalla, no Inferno ou no Paraíso. Essa é a forma mais antiga e comum de os humanos enfrentarem a finitude da vida. Podemos tentar evitar a ideia da morte afastando-a de nós tanto quanto possível – encobrindo e reprimindo a ideia indesejada – ou assumindo uma crença inabalável em nossa própria imortalidade - “os outros morrem, eu não”: […] Podemos encarar a morte como um fato de nossa existência; podemos ajustar nossas vidas, e particularmente nosso comportamento em relação às outras pessoas, à duração limitada de cada vida.

[p.8] E isso não é só uma questão do fim efetivo da vida, do atestado de óbito e do caixão. Muitas pessoas morrem gradualmente; adoecem, envelhecem. As últimas horas são importantes, é claro. Mas muitas vezes a partida começa muito antes.

Isolamento tácito dos velhos e dos moribundos

[p.9] O problema social da morte é especialmente difícil de resolver porque os vivos acham difícil identificar-se com os moribundos.

[p.10] A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão; apenas eles podem prever seu próprio fim, estando cientes de que pode ocorrer a qualquer momento e tomando precauções especiais – como indivíduos e como grupos – para proteger-se contra a ameaça da aniquilação.

Entre as maiores ameaças aos humanos figuram os próprios humanos. Em nome do objetivo de se proteger da destruição, grupos de pessoas ameaçam outros grupos de destruição. Desde os primeiros dias, sociedades formadas por seres humanos exibem as duas faces de Janus: pacificação para dentro, ameaça para fora.

[p.11] A experiência da morte é variável e específica segundo os grupos; não importa quão natural e imutável possa parecer aos membros de cada sociedade particular: foi aprendida. Na verdade não é a morte, mas o conhecimento da morte que cria problemas para os seres humanos. » uma mãe macaca pode carregar sua cria morta durante certo tempo antes de largá-la em algum lugar e perdê-la. Nada sabe da morta, da de sua cria ou de sua própria. Os seres humanos sabem, e assim a morte se torna um problema para eles.

2 [p.12] Seria interessante fazer um levantamento de todas as crenças que as pessoas mantiveram ao longo dos séculos para habituar-se ao problema da morte e sua ameaça incessante a suas vidas; e ao mesmo tempo mostrar tudo o que fizeram umas às outras em nome de uma crença que prometia que a morte não era um fim e que os rituais adequados poderiam assegurar-lhes a vida eterna. Claramente não há uma noção, por mais bizarra que seja, na qual as pessoas não estejam preparadas para acreditar com devoção profunda, desde que lhes dê um alívio da consciência de que um dia não existirão mais, desde que lhes dê esperança numa forma de vida eterna.

[p.13] Nas sociedades mais desenvolvidas, a busca de ajuda em sistemas de crenças sobrenaturais contra o perigo e a morte se tornou menos apaixonada; em certa medida, transferiu sua base para sistemas seculares de crenças. […] Nos Estados-nação mais desenvolvidos, a segurança das pessoas, sua proteção contra os golpes mais brutais do destino como a doença ou a morte repentina, é muito maior que anteriormente, e talvez maior que em qualquer outro estágio do desenvolvimento da humanidade. Comparada com estágios anteriores, a vida nessas sociedades se tornou mais previsível, ainda que exigindo de cada indivíduo um grau mais elevado de antecipação e controle das paixões. A expectativa de vida relativamente alta dos indivíduos nessas sociedades é um reflexo do aumento da segurança. » entre os cavaleiros do século XIII, um homem de quarenta anos era visto quase como um velho; nas sociedades industriais do século XX, ele é considerado quase jovem – com diferneças específicas de classe.

[p.14] Nas sociedades desenvolvidas os perigos que ameaçam as epssoas, particularmente o da morte, são mais previsíveis, ao mesmo tempo em que diminui a necessidade de poderes protetores supra-humanos.
[p.15] A atitude em relação à morte e a imagem da morte em nossas sociedades não podem ser completamente entendidas sem referência a essa segurança relativa e à previsibilidade da vida individual - e à expectativa de vida correspondentemente maior. A vida é mais longa, a morte é adiada. O espetáculo da morte não é mais corriqueiro (gladiadores, enforcamento). Ficou mais fácil esquecer a morte no curso normal da vida. Diz-se às vezes que a morte é “recalcada”.

3. Se Hoje se diz que a morte é “recalcada”, o termo é utilizado num duplo sentido. Pode tratar-se de um “recalcamento” tanto no plano individual como no social. No primeiro caso, o termo é utilizado no mesmo sentido de Freud. Refere-se a todo um grupo de mecanismos psicológicos de defesa socialmente instilados pelos quais experiências de infância excessivamente dolorosas, sobretudo conflitos na primeira infância e a culpa e a angústia a eles associadas, bloqueiam o acesso à memória. De maneiras indiretas e disfarçadas, influenciam os sentimentos e o comportamento da pessoa; mas desapareceram da memória. » Experiências e fantasias de primeira infância também desempenham papel considerável na maneira como as pessoas enfrentam o conhecimento de sua morte próxima. Alguns podem olhar para sua morte com serenidade, outras com um medo intenso e constante, muitas vezes sem expressá-lo e até mesmo sem capacidade de expressá-lo. » Uma maneira familiar de tornar suportáveis as angústias infantis sem ter que enfrentá-las é imaginar-se imortal. Isso assume muitas formas. Conheço pessoas que não são capazes de envolver-se com moribundos porque suas fantasias compensatórias de imortalidade, que mantêm sob controle seus terríveis medos infantis, seriam perigosamente abaladas pela proximidade deles. Esse abalo poderia permitir que seu grande medo da morte – da punição – penetrasse sua consciência, o que seria insportável.

[p.16-17] A morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte. A visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte.

A associação do medo da morte a sentimentos de culpa pode ser encontrada em mitos antigos. No paraíso, Adão e Eva eram imortais. Deus os condenou a morrer porque Adão, o homem, violou o mandamento do pai divino. O sentimento de que a morte é uma punição imposta a mulheres e homens pela figura do pai ou da mãe, ou de que depois da morte serão punidos pelo grande pai por seus pecados, também desempenhou papel considerável no medo humano da morte por um longo tempo.

[p.18] Esses problemas individuais do recalcamento da ideia da morte andam de mãos dadas com problemas sociais específicos. Nesse plano, o conceito de recalcamento tem um sentido diferente. No entanto, a peculiaridade do comportamento em relação à morte que prevalece hoje na sociedade só é percebida se comparada à de épocas anteriores ou de outras sociedades. […] Formulando a questão diretamente, a mudança de comportamento social referida ao falarmos do “recalcamento” da morte nesse sentido é um aspecto do impulso civilizador mais amplo que examinei com mais detalhes em outro lugar. Em seu curso, todos os aspectos elementares e animais da vida humana, que quase sem exceção significam perigo para a vida comunitária e para o próprio indivíduo, são regulados de maneira mais equilibrada, mais inescapável e mais diferenciada que antes pelas regras sociais e também pela consciência.

[p.19] Philippe Ariès » História da Morte no Ocidente » tentou apresentar a seus leitores um retrato vívido das mudanças no comportamento e atitudes dos povos ocidentais diante da morte. Mas Ariès entende a história puramente como descrição. Acumula imagens e mais imagens e assim, em amplas pinceladas, mostra a mudança total. Isso é bom e estimulante, mas não explica nada. A seleção de fatos de A se baseia numa opinião preconcebida. Ele tenta transmitir sua suposição de que antigamente as pessoas morriam serenas e calmas. É só no presente, postula, que as coisas são diferentes. Num espírito romântico, Ariès olha com desconfiança para o presente inglório em nome de um passado melhor. Embora seu livro seja rico em evidências históricas, sua seleção e interpretação dessas evidências deve ser examinada com muito cuidado.

[p.23] O medo da punição depois da morte e a angústia em relação à salvação da alma se apossavam igualmente de ricos e de pobres, sem aviso prévio. Como garantia, os príncipes sustentavam igrejas e mosteiros; os pobres rezavam e se arrependiam.

Ariès diz pouco sobre o medo do inferno espalhado pela Igreja. Mas há quadros medievais que mostram o que, de acordo com as ideias da época, esperavam pelas pessoas depois da morte. Um exemplo ainda pode ser encontrado num cemitério famoso do final da idade média, em Pisa. Uma figura retrata vividamente os terrores que aguardavam as pessoas depois da morte. Mostra os anjos conduzindo as almas salvas para a vida sem fim no paraíso, e os horríveis demônios que atormentam os condenados ao inferno. Com tais imagens aterrorizantes diante dos olhos, uma morte pacífica não pode ter sido fácil.

Em resumo, a vida na sociedade medieval era mais curta; os perigos, menos controláveis; a morte, muitas vezes mais dolorosa; o sentido da culpa e o medo da punição depois da morte, a doutrina oficial. Porém, em todos os casos, a participação dos outros na morte de um indivíduo era muito mais comum. Hoje sabemos como aliviar as dores da morte em alguns casos; angústias de culpa são mais plenamente recalcadas e talvez dominadas. Grupos religiosos são menos capazes de assegurar sua dominação pelo medo do inferno. Mas o envolvimento dos outros na morte de um indivíduo diminuiu.

5 [p.25] Em épocas mais antigas, morrer era uma questão muito mais pública do que hoje. E não poderia ser diferente. Primeiro porque era muito menos comum que as pessoas estivessem sozinhas. Freiras e monges podem ter estado sós em suas celas, mas as pessoas comuns viviam constantemente juntas. As moradias deixavam pouca escolha. Nascimento e morte – como outros aspectos animais da vida humana – eram eventos mais públicos, e portanto mais sociáveis, que hoje; eram menos privatizados. Nada é mais característico da atitude atual em relação à morte que a relutância dos adultos diante da familiarização das crianças com os fatos da morte. Isso é particularmente digno de nota como sintoma de seu recalcamento nos planos individual e social.

[p.26~27] Sobre as crianças
[p.29] No registro dos sentimentos contemporâneos dificilmente encontraremos qualquer coisa que corresponda a essa mistura de funéreo e irreverente, essa descrição detalhada da decomposição humana como manobra de sedução.

7 [p.31] Em nossos dias, à maior exclusão possível da morte e dos moribundos da vida social, e à ocultação dos moribundos dos outros, particularmente das crianças, há um desconforto peculiar sentido pelos vivos na presença dos moribundos. Muitas vezes não sabem o que dizer. A gama das palavras disponíveis para uso nessas ocasiões é relativamente exígua. O embaraço bloqueia as palavras. Para os moribundos essa pode ser uma experiência amarga. Ainda vivos, já haviam sido abandonados.

[p.32] A convenção social fornece às pessoas umas poucas expressões estereotipadas ou formas padronizadas de comportamento que podem tornar mais fácil enfrentar as demandas emocionais de tal situação.

[p.37] O afastamento dos vivos em relação aos moribundos e o silêncio que gradualmente os envolve continuam depois que chega o fim. Isso pode ser visto, por exemplo, no tratamento dos cadáveres e no cuidado com as sepulturas. As duas atividades saíram das mãos da família, parentes e amigos e passaram para especialistas remunerados. A memória da pessoa morta pode continuar acesa; os corpos mortos e as sepulturas perderam significação. A Pietà de Michelangelo, a mãe em prantos com o corpo de seu filho, continua compreensível como obra de arte, mas dificilmente imaginável como situação real.

[p.40] Até o modo como é utilizada a expressão “os mortos” é curioso e revelador. Dá a impressão de que as pessoas mortas em certo sentido ainda existem não só na memória dos vivos, mas independentemente deles. Os mortos, porém, não existem. Ou só existem na memória dos vivos, presentes e futuros. É especialmente para as desconhecidas gerações futuras que aqueles que estão agora vivos se voltam com tudo o que é significativo em suas realizações e criações. […] O medo de morrer é sem dúvida também um medo de perda e destruição daquilo que os próprios moribundos consideram significativo.

[p.43] o encobrimento e o recalcamento da morte, ie, da finitude irreparável de cada existência humana, na cosnciencia humana, são muito antigos. Mas o modo do encobrimento mudou de maneira específica com o correr do tempo. Em períodos anteriores, fantasias coletivas eram o meio predominante de lidar com a noção de morte. Ainda hoje, é claro, desempenham um importante papel. O medo de nossa própria transitoriedade é amenizado com ajuda de uma fantasia coletiva de vida eterna em outro lugar. Como a administração dos medos humanos é uma das mais importantes fontes de poder das pessoas sobre as outras, uma profusão de domínios se estabeleceu e continua a se manter sobre essa base. Com a grande escalada da individualização em tempos recentes, fantasias pessoais e relativamente privadas de imortalidade destacam-se mais frequentemente da matriz coletiva e vêm para o primeiro plano.

[p.45] Muitas outras fantasias descobertas por Freud se agrupam em torno da imagem da morte. Já me referi aos sentimentos de culpa, à noção da morte como punição por más ações cometidas. É uma questão aberta a ajuda que se pode dar aos moribundos aliviando angústias profundas referentes a punições por ofensas imaginárias – muitas vezes infantis. A instituição eclesiástica do perdão e da absolvição mostra uma compreensão intuitiva da frequência com que angústias de culpa se associam ao processo da morte, e Freud foi o primeiro a oferecer uma explicação científica para elas.

[p.48] a morte e um pai ou de uma mãe muitas vezes desperta desejos de morte enterrados e esquecidos, associados a sentimentos de culpa e, em alguns casos, ao medo da punição.

Um manual escolar perfeitamente sensato descreve o que as pessoas dizem às crianças quando uma pessoa morre: “Seu avô está no céu agora” - “Sua mamãe olha para você lá do céu” - “Sua irmãzinha agora é um anjo”. O exemplo mostra o quão firmemente arraigada está em nossa sociedade a tendência a ocultar a finitude irrevogável da existência humana, especialmente das crianças, pelo uso de ideias coletivas acalentadoras, e a assegurar o encobrimento por uma rígida censura social estrita.

[p.53] A morte é o fim absoluto da pessoa. […] Mas ao refletir sobre tais questões não podemos ignorar o fato de que não é a própria morte que desperta temor e terror, mas a imagem antecipada da morte. Se eu caísse morto aqui e agora sem qualquer dor, isso não seria minimamente assustador para mim. Não estaria mais aqui, e, consequentemente, não sentiria o terror. O terror e o temor são despertados somente pela imagem da morte na consciência dos vivos. Para os mortos não há temor nem alegria.

[p.54] Se percebemos que o determinante na relação das pessoas com a morte não é simplesmente o processo biológico desta, mas a ideia, em constante evolução e específica do estágio da civilização, que se tem dela e a atitude associada a isso, o problema sociológico da morte aparece com contornos mais claros.

12 [p.55] A segunda característica específica das sociedades contemporâneas aqui relevante é a experiência da morte como estágio final de um processo natural, experiência que ganhou significação pelo progresso na ciência médica e em medidas práticas para elevar o padrão de higiene. A ideia de um processo natural ordenado é característica de um estágio específico no desenvolvimento do conhecimento e da sociedade.

[p.56] A constatação de que a morte é inevitável está encoberta pelo empenho em adiá-la mais e mais com ajuda da medicina e da providência, e pela esperança de que isso talvez funcione.

[p.62] É fácil compreender que uma pessoa que acredite viver como um ser sem sentido morra da mesma forma.

[p.70] Análise da novela de Tolstoi - O senhor e o homem.

[p.71] » “a ideia da morte, a qual provavelmente o levaria nesta mesma noite, cresceu dentro dele, mas não tinha nada de dolorosa ou terrível. Isso porque ele tivera muitos poucos dias felizes e de festa em sua vida, mas muitas semanas amargas, e estava cansado do trabalho incessante.” […] Tolstoi tenta, portanto, deixar bem-explicitada a conexão entre a maneira como uma pessoa vive e a maneira como morre. (Coisa que Aires negligencia)

[p.72] O modo como uma pessoa morre depende em boa medida de que ela tenha sido capaz de formular objetivos e alcançá-los, de imaginar tarefas e realizá-las. Depende do quanto a pessoa sente que sua vida foi realizada e significativa – ou frustrada e sem sentido. As razões desses sentimentos nem sempre são claras – essa também é uma área ainda aberta à pesquisa. Mais quaisquer que sejam as razões, podemos talvez supor que morrer é mais fácil para aqueles que acreditam terem feito sua parte, mais difícil para os que sentem terem fracassado na busca de seus objetivos, e especialmente difícil para aqueles que, por mais que sua vida possa ter sido bem-sucedida, sentem que sua maneira de morrer é em si mesma sem sentido.

Morte significativa, morrer sem sentido – esses conceitos também abrem a porta para problemas que, pode-se iamginar, recebem muito pouca consideração pública.

[p.73] As pessoas experimentam os eventos que lhes acontecem como sendo significativos ou não, como tendo ou não sentido. É esse sentido experimentado que está em questão. Se um homem de trinta anos, pai de duas crianças pequenas e casado com uma mulher que ama e que também o ama, envolve-se num acidente de estrada com um motorista que vinha na contramão e morre, dizemos que é uma morte sem sentido. Não porque o morto tenha deixado irrealizado um sentido extra-humano, mas porque uma vida que não tinha qualquer relação com a da família afetada, a vida do outro motorista, de um só golpe, como que vindo de fora e por acaso, destruiu a vida, os objetivos e planos, os sentimentos firmemente enraizados de um ser humano e, portanto, algo que tinha todo o sentido para essa família.

[p.75] O conceito de solidão tem um amplo espectro. Pode referir-se a pessoas cujo desejo de amor em relação aos outros foi muito cedo tão ferido e perturbado que mais tarde dificilmente podem reviver a experiência sem sentir os golpes anteriormente recebidos, sem sentir a dor a que esse desejo as expôs em outros tempos. Involuntariamente, pessoas assim afetadas ocultam seus sentimentos em relação aos outros. É uma forma de solidão. Outra forma de solidão, que é social no sentido mais estrito, ocorre quando as pessoas vivem num lugar ou têm uma posição que não lhes permite encontrar outras pessoas da espécie que sentem precisar. Neste, e em muitos casos afins, o coneito de solidão refere-se a uma pessoa que por essa ou aquela razão é deixada só. Tais pessoas podem viver entre as outras, mas não têm significado afetivo para elas.

O conceito de solidão inclui também uma pessoa em meioa a muitas outras para as quais não tem significado, para as quais não faz diferença sua existência, e que romperam qualquer laço de sentimentos com ela. Pertencem a esse grupo alguns pedintes e os bêbados que sentam nas soleiras e nem são percebidos pelos passantes. As prisões e câmaras de tortura dos ditadores são exemplos dessa espécie de solidão. O caminho para as câmaras de gás é outro.

[p.76] A morte não é terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr bem. Terrível pode ser a dor dos moribundos, terrível também a perda sofrida pelos vivos quando morre uma pessoa amada.

[p.77] É terrível quando pessoas morrem jovens, antes que tenham sido capazes de dar um sentido às suas vidas e de experimentar suas alegrias. É também terrível quando homens, mulheres e crianças erram famintas pela terra estéril onde a morte não tem pressa.

A morte não tem segredos. Não abre portas. É o fim de uma pessoa. O que sobrevive é o que ela ou ele deram às outras pessoas, o que permanece nas memórias alheias. Se a humanidade desaparecer, tudo o que qualquer ser humano tenha feito, tudo aquilo pelo qual as pessoas viveram e lutaram, incluídos todos os sistemas de crenças seculares e sobrenaturais, torna-se sem sentido.

Envelhecer e Morrer: Alguns Problemas Sociológicos.

[p.86] Muitos asilos são, portanto, desertos de solidão.

[p.90] A morte é um dos fatos que indica que o controle humano sobre a natureza tem limites. Sem dúvida a abrangência desse controle é em muitas áreas extremamente grande. O que não significa que não existam limites ao que é realizável pelos seres humanos em relação aos fatos da natureza.






terça-feira, 24 de março de 2015

Karl Marx – Sobre o Suicídio

Fichamento: Karl MarxSobre o Suicídio (Boitempo Editorial)

Um Marx Insólito [p.14] A principal questão social discutida em relação ao suicídio é a opressão das mulheres nas sociedades modernas.

Ele não introduz qualquer distinção entre seus próprios comentários e os excertos de Peuchet, de modo que o conjunto do documento aparece como um escrito homogêneo, assinado por KM.

Peuchet não é Balzac, mas suas memórias apresentariam uma variante de qualidade literária: basta lembrar que um dos seus episódios inspirou O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

[p.16] O suicídio é significativo, tanto para Marx como para Peuchet, sobretudo como sintoma de uma sociedade doente, que necessita de uma trasformação radical.

A sociedade moderna, escreve Marx citando Peuchet,que por sua vez cita Rousseau, é um deserto, habitado por bestas selvagens. Cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo é ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio.

A classificação das causas do suicídio é uma classificação dos males da sociedade burguesa moderna, que não podem ser suprimidos – aqui é Marx quem fala – sem uma transformação radical da estrutura social e econômica.

[p.17] Ao mencionar os males economicos do capitalismo, que explicam muitos dos suicídios – os baixos salários, o desemprego, a miséria -, Peuchet ressalta as manifestações de injustiça social que não são diretamente econômicas, mas dizem respeito à vida privada de indivíduos não proletários.

[p.18] A natureza desumana da sociedade capitalista fere os indivíduos das mais diversas origens sociais.

Quem são as vítimas não proletárias levadas ao desespero e ao suicídio pela sociedade burguesa? Há um setor social que toma um lugar central tanto nos excertos de Peuchet como nos comentários de Marx: as mulheres. Esse texto de M é uma das mais poderosas peças de acusação à opressão contra as mulheres já publicadas. Três dos quatro casos de suicídios mencionados nos excertos se referem a mulheres vítimas do patriarcado ou, nas palavras de Peuchet/Marx, da tirania familiar, uma forma de poder arbitrária que não foi derrubada pela Revolução Francesa.

Sobre o suicídio [p.23-24] A respeito do suicídio: o número anual dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter epidêmico. A prostituição e o latrocínio aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a maior causa do suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas.

Causas – as doenças debilitantes, contra as quais a atual ciência é inócua e insuficiente, as falsas amizades, os amores traídos, os acessos de desânimo, os sofrimentos familiares, as rivalidades sufocantes, o desgosto de uma vida monótona, um entusiasmo frustrado e reprimido são muito seguramente razões de suicídio para pessoas de um meio social mais abastado , e até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma existência detestável.
Madame de Staël – tentou demonstrar que o suicídio é uma ação antinatural e que não se deve considerá-lo um ato de coragem; sobretudo, ela sustentou a ideia de que é mais digno lutar contra o desespero do que a ele sucumbir. Argumentos como esses afetam muito pouco as almas a quem a infelicidade domina. » se são religiosas, as pessoas especulam sobre um mundo melhor; se, ao contrário, não creem em nada, então buscam a tranquilidade do Nada.

[p.25] Antes de tudo, é um absurdo considerar antinatural um comportamento que se consuma com tanta frequência; o suicídio não é, de modo algum, antinatural, pois diariamente somos suas testemunhas. O que é contra a natureza não acontece. Ao contrário, está na natureza de nossa sociedade gerar muitos suicídios, ao passo que os tártaros não se suicidam. As sociedades não geram todas, portanto, os mesmos produtos. […]
»Não é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão controversa.

NFP : para saber se o motivo que determina o indivíduo a se matar é leviano ou não, não se pode pretender medir a sensibilidade dos homens usando-se uma única e mesma medida; não se pode concluir pela igualdade das sensações, tampouco pela igualdade dos caracteres e dos temperamentos; o mesmo acontecimento provoca um sentimento imperceptível em alguns e uma dor violenta em outros. A felicidade e a infelicidade tem tantas maneiras de ser e de se manifestar quantas são as diferenças entre os indivíduos e os espíritos. Um poeta disse: O que faz tua felicidade é minha aflição / O prêmio de tua virtude é minha punição.

[p.26] Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? É que o sangue não corre do mesmo modo nas veias de gente desesperada e nas veias dos seres frios, que se dão o lazer de proferir todo esse palavrório estéril.

[p.27] Acreditou-se que se poderiam conter os suicídios por meio de penalidades injuriosas e por uma forma de infâmia, pela qual a memória do culpado ficaria estigmatizada. O que dizer da indignidade de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para advogar suas causas? De resto, os infelizes se preocupam pouco com isso e, se o suicídio é culpa de alguém, é antes de tudo as pessoas que ficam, já que, de toda essa grande massa de pessoas, nem sequer um indivíduo foi merecedor de que se permanecesse vivo por ele. […] Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas uma covardia a mais da parte dos vivos.

[p.28] Prevenir – eu queria saber se entre suas causas determinantes não poderiam ser encotnradas algumas cujo desfecho se poderia prevenir » descobri que, sem uma reforma total da ordem social de nosso tempo, todas as tentativas de mudança seriam inuteis.

A revolução não derrubou todas as tiranias; os males que se reprovavam nos poderes despóticos subsistem nas famílias; nelas eles provocam crises análogas àquelas das revoluções.

[p.42] A opinião é muito fragmentada em razão do isolamento dos homens; é estúpida demais, depravada demais, porque cada um é estranho de si e todos são estranhos entre si.

[p.43] Sem dúvida, é de suma importância que esses pobres-diabos suportem a vida, ainda que seja apenas no interesse das classes privilegiadas deste mundo, interesse que seria arruinado pelo suicídio geral da canalha; mas haveria outro meio de tornar suportável a existência dessas classes, que não a injúria, o sorriso irônico e as belas palavras?


[p.48] Vê-se que, na ausência de algo melhor, o suicídio é o último recurso contra os males da vida privada. Entre as causas do suicídio, contei muito frequentemente a exoneração de funcionários públicos, a recusa de trabalho, a súbita queda dos salários, em consequência de que as famílias não obtinham os meios necessários para viver, tanto mais que a maioria delas ganha apenas para comer.

domingo, 22 de março de 2015

A morte e o pensamento

Fichamento: A morte e o pensamento. In: Orientação Filosófica, Marcel Conche

[p.135] A morte é considerada um objeto possível do pensamento. Em primeiro lugar, um objeto, em segundo, um objeto possível. Ou pensamos na morte, ou não pensamos. O pensamento está de um lado e a morte, do outro. […] O pensamento depara com a morte como com um objeto doloroso, de que é preciso se afastar se quisermos ser felizes: “Os homens, por não terem podido livrar-se da morte, da miséria, da ignorância, permitiram-se, para tornarem-se felizes, não pensar nela.

[p.136] Não deixamos de pensar na morte senão deixando de pensar.

[p.136] Mas, o que sabemos sobre a morte? Para nos limitarmos ao discurso comum (ie, ao discurso que o homem natural liga a si mesmo) – e, neste ponto, é preciso com Sócrates, Montaigne e Pascal, dar razão ao discurso comum -, há três coisas que sabemos de maneira absolutamente certa: 1º, que morremos, 2º, que não sabemos o que isso significa, 3º, que nenhum homem jamais o saberá.

[p.136] A. Sabemos que vamos morrer » é a verdade primeira e fundamental que comanda toa a sua vida. Mesmo quando todo o resto é incerto, resta a certeza de morrer. “Não há mada de certo para o homem, a não ser, para aquele que nasceu, o morrer”, diz Crítias.

[p.137] Aquele que tem a certeza da existência de Deus pela demonstração de Descartes tem menos certeza dessa existência do que de sua própria morte. As certezas que nos vêm das demonstrações não são de modo algum as maiores. Porque as demonstrações supõem a fiabilidade do espirito humano. Não podem, pois, engendrar uma confiança superior à que o espirito humano tem em si mesmo. E, com certeza, não há nenhum homem que não esteja muito mais certo de sua própria morte do que do valor de seu espírito (de sua capacidade de atingir a verdade).

Não temos “demonstração” de nossa morte, mas ninguém acha que precisa dela. Para cada um, o fato de que vai morrer é uma convicção íntima, que está no fundo de tudo o que faz e de tudo o que diz. Se age, se fala, é para, de um modo ou de outro, afastar a morte (por exemplo, é para que a memória dos outros, ou a memória coletiva, o façam sair, por um tempo, do nada).

De onde vem essa “convicção íntima”? A convicção que cada um tem de sua morte como de uma verdade primeira está ligada a um insuperável sentimento de impotência. Sabemos que vamos morrer e que nada podemos fazer. A morte é a “onipotente”, como diz Píndaro. Qualquer que seja a nossa potência, sabemos que, diante da morte, ela nada pode (o que, aliás, em ultima análise, torna inútil toda aquisição de potência).

[p.138] Podemos escapar a qualquer potência hostil particular. Mas há aquilo a que não podemos escapar: o nosso destino. […] Digamos que seja uma lei, a lei universal da natureza, aquela de que falam Anaximandro e Heráclito, e que, mesmo sendo particular, associa-se ao fato de sermos obrigados a perecer.

Ao mesmo tempo em que nos sentimos impotentes, de uma impotência definitiva e invencível, sabemos muito bem que, neste aspecto, nossa condição nada tem de excepcional. Sabemos que os outros seres, e particularmente todos os homens, estão exatamente na mesma condição.

O sentimento, inteiramente primordial, no homem que vive próximo às coisas essenciais, de uma fundamental igualdade entre todos os seres, e em particular entre todos os homens – o sentimento de que a natureza não conferiu privilégio a ninguém. A velha ideia popular de que hierarquia alguma subsiste no momento da morte (de que a ideia de condição humana, como condição mortal, não é senão a repetição no plano filosófico) sempre serviu para afirmar, pela evocação de sua igualdade perante a morte, a igualdade natural de todos os homens, quaisquer que sejam suas diferenças sociais.

[p.139] Nossa impotência se trata de uma impotência irremediável por princípio, não é de modo especificamente nossa, mas de tudo o que existe na natureza. Nosso sentimento de impotência está ligado ao sentimento de fazer parte da natureza e de compartilhar do destino comum. Tudo o que é “natural” encontra-se num estado de dependência radical em relação à Lei na natureza. Esta “lei”, desde os pensadores jônicos, é a lei do nascer e do perecer, do devir.

A lei da natureza associa vida e morte, não as separa. A noção de “natureza” não significa apenas dissolução e morte, mas também, e mesmo principalmente, vida, fecundidade, crescimento, desenvolvimento normal de um ser, mudança orientada e ordenada.

[p.140] Sabemos que vamos morrer, dizíamos. Em outras palavras, sabemos que estamos na dependência de um princípio de dissolução. Esta dependência é total. Nada do que possamos fazer irá mudar alguma coisa. Nesse aspecto em particular, o fato de falar e pensar é, enfim, uma atividade tão vã quanto qualquer outra.
“Sabemos” que vamos morrer: o termo “saber” não deve ser entendido como um saber “objetivo”, como um conhecimento, mas como um saber constitutivo, não como um saber adquirido, mas como um saber que sempre esteve presente, que é um só conosco mesmos. Não posso me conceber não “sabendo” isso. Eu já não seria um ser humano, mas um animal talvez, ou um anjo. Uma vez que sou consciente – e é isso que me torna diferente do animal e da criança antes da linguagem – por exemplo, quando acordo pela manhã, eu me penso, e isso significa: eu me penso mortal. […] Pensar-me e pensar mortal são a mesma coisa. Por conseguinte, todo pensamento se desenvolve sobre o fundo de um saber da morte. A morte é, como tal, o horizonte do pensamento.

[p.141] Uma experiência irrefutável nos ensina que estamos na dependência de um princípio de morte, e isso antes mesmo de qualquer representação sensorial do corpo. Há nisso uma especie de proto-experiência, uma experiência primordial da qual tiramos a convicção totalmente primitiva de nossa mortalidade.

[p.143] O saber que o homem tem de si mesmo como de um ser pensante destinado à morte confunde-se com a auto-constituição humana.

B. Vamos morrer, mas não sabemos o que isso significa.
O que é, para um homem, “morrer”, estar “morto”? É ou não ser aniquilado (enquanto homem, mais precisamente, enquanto ser homem, significa também ser si)? O fato é impossível de decidir. Não podemos, no caso, ir além de um talvez. Então, toda vida humana se passa sob o signo de uma primordial e absoluta incerteza a respeito de si mesma.

[p.144] Na falta de um saber “objetivo”, não podemos falar, como há pouco, de um saber constitutivo, ie, ligado à autoconstituição do homem? De modo algum. Se fosse esse o caso, os homens concordariam sobre o que é a morte. Mas não há acordo algum. Alguns estão convencidos – ou “convictos” - da imortalidade da “alma” ou de algum principio análogo. Assim, Kafka, que, ao universalizar sua própria convicção, nos diz: “o homem não pode viver sem uma confiança apoiada na existência de algo indestrutível em si mesmo”. Os outros têm a convicção – ou a quase convicção – contrária.

[p.145] Então, se não sabemos “o que é” a morte, por isso mesmo, não sabemos também “o que é” a vida, ou seja, de que maneira convém viver para levar uma vida “humana” ou qual é o sentido da vida. […] Aqui, o “sentido” não é aquilo que nos faz perceber algo, como quando se fala dos sentidos sensoriais, do “bom senso”, do “senso moral”, nem daquilo que faz que um signo tenha uma significação, mas aquilo que permite orientar-nos. O sentido é princípio de orientação.
É verdade que, de certa maneira, a exemplo dos outros seres, o homem já está sempre orientado. Este princípio de orientação ao qual, podemos pensar, não teríamos senão de nos confiar, é sua natureza. O que é uma “natureza”? Análise de Aristóteles. A natureza de um ser é a força ativa que lhe é imanente. Ela é, para este ser, o princípio (arche) interno de seu movimento (ou mudança) e de seu repouso. Ou: aquilo por que a mudança de um ser é ordenada do interior, e que guia um ser para sua realização. A natureza é o princípio do normal e do bem sucedido. Um ser natural se modifica para atualizar suas virtualidades, para se realizar, para se consumar.

[p.147] Orientação – o homem já é orientado por aquilo que podemos chamar de sua “natureza”, mas, no homem, a natureza é principio de orientação de fato, não de direito. […] dizemos que ele já é orientado: por sua natureza animal (as necessidades são como orientações primitivas do comportamento), psicológica (tendências, preferências, gostos “naturais” - porque não os escolhemos – guiam, determinam nossas escolhas, e pouco importa se são “inatos” ou se são o resultado, doravante quase inalterável, da proto-história individual), social (a educação se inscreve no indivíduo na forma de hábitos que, a exemplo de uma natureza, serão doravante o pressuposto de seu ser: as escolhas dos pais são a natureza dos filhos).

[p.150] Em particular, se a morte é um aniquilamento, não é certo que a moral ainda conserve algum sentido. Há que distinguir a moral da ética. A ética é a teoria da totalização da vida (em outros termos, a teoria de uma vida sensata, ou: a teoria de uma vida que seja tal que a morte não possa torná-la absurda). Ela admite ou não que o homem tenha deveres. Mas a moral está ligada à noção de dever – entendendo, pelo termo dever: obrigação incondicional. A lei moral nos obriga a ir contra nosso interesse egoísta ou pessoal sem nada nos prometer em troca.

[p.151] Nietzsche via um vínculo indissolúvel entre as duas noções de moral e de além: “ingenuidade em crer que a moral continua quando falta o Deus que a sanciona! O “além” absolutamente necessário se quisermos manter a fé na moral”.

[p.152] C. Vamos morrer, não sabemos o que isso significa, e homem algum jamais o saberá.
Deus, a imortalidade, e a vida futura: entendemos, por isso, a significação da morte. Não existe conhecimento dela.

[p.153] o senso comum sempre esteve certo de que nenhum homem simplesmente poderia ter qualquer conhecimento do “além”. È por isso que ele não se preocupa com metafísica, porque, “evidentemente, não podemos saber nada”.

Se entendermos por cepticismo, a doutrina que nega a possibilidade de atingir uma verdade segura em algum domínio determinado, o cepticismo metafísico parece muito legítimo – mas num certo nível somente, e convém, precisamente, distinguir os níveis:
[p.154] AA. Não sabemos qual é o “verdadeiro” sentido da vida, qual é a “verdadeira” significação do homem, nem mesmo se é o caso de propor tais questões e se existe uma verdade do homem, ou se o homem, a exemplo das outras espécies, só pode ser objeto de um conhecimento científico, entendamos, de um conhecimento de fato. […] Enquanto houver homens, e que vão morrer, a morte será para eles certa e, ao mesmo tempo, desconhecida em sua significação.

[p.155] BB. Podemos opor os sistemas uns aos outros, e deles extrair uma “lição” de cepticismo.

[p.158] CC. O filósofo mediante visa a determinar-se em relação aos modelos possíveis de realidade, às hipóteses filosóficas.

[p.159] Se optarmos pelo materialismo, estaremos optando por uma concepção de morte como cessão de ser, como aniquilamento. Mas se optarmos pelo idealismo, optaremos ou não optaremos por uma sobrevivência individual, uma vez que o idealismo é compatível com tal hipótese, mas não a implica necessariamente (nem Aristóteles, nem Hegel admitem a imortalidade pessoal da alma – e se a tivessem admitido, teria sido apenas uma opinião dentro do sistema, considerando-se o caráter de seu idealismo.

[p.160] Para o pensamento filosófico, importa não deixar o sentido da morte e da vida numa indeterminação flutuante, importa fixá-lo. Mas, na hipótese materialista, chegamos a um sentido? Não se trata mais de uma ausência de sentido? A réplica é que o risco de faltar o sentido está mais do outro lado. Pq se a vida é radicalmente mortal (se não existe vida imortal), ela é fundamentalmente finita. Então, aquilo que tem um sentido é aquilo que leva a alguma coisa. A noção de sentido implica a noção de termo final, de conclusão. Não há sentido onde não há fim. O sentido exige o finito.

[p.162] O materialismo é uma filosofia da morte. O homem individual é apenas uma parte da humanidade, e a história humana é apenas um acidente na crosta terrestre. Se, ao fim de um tempo mais ou menos longo, nada restar das obras do homem, e se o sentido da vida tivesse de ser encontrado nas obras da vontade, haveria aí uma insensatez radical, uma vez que só se teria desejado o nada. Isso mostra que, na hipótese materialista, o sentido da vida não pode ser encontrado naquilo que permanece (nas obras e na produção das obras), mas só pode estar na própria atividade como tendo seu fim em si mesma, enquanto atividade plenamente bem executada.

Resumindo. Ignoramos “o que é” a morte. Mas não podemos evitar pensá-la (porque a significação da vida depende da significação da morte). Há, pois, que distinguir o pensamento e o conhecimento. A filosofia pensa o real, mas não o conhece. Só chega a possibilidades. A filosofia adota uma ou outra dessas possibilidades pela meditação. Existe a equivalência das hipóteses quanto à sua capacidade de fixar a orientação e o sentido da vida. A escolha só pode ser feita pela meditação, sobre o fundamento de nossas evidências próprias e constitutivas.




sexta-feira, 13 de março de 2015

Mad World - Tears for Fears

and i find it kinda funny
i find it kinda
sad the dreams in which i dying
are the best i ever had...

(donnie darko soundtrack)

quinta-feira, 12 de março de 2015

A Loja Mágica de Brinquedos

"Quando o Rei Lear morre no ato 5, sabe o que Shakespeare escreveu? Ele escreveu “Ele morre”.  Só isso. Nada mais. Sem fanfarras, sem metáforas, sem palavras finais brilhantes. O ponto culminante da mais influente obra da literatura dramática é “Ele morre”. Foi preciso Shakespeare, um gênio, para escrever “ele morre”.  E sempre que leio essas palavras, sou tomado por um desassossego.  Sei que é natural ficar triste. Mas não pelas palavras “ele morre”, mas pela vida que vimos antes dessas palavras.
Eu vivi todos os meus cinco atos, Mahoney. E não peço para que fique feliz com minha partida. Só peço que vire a página, continue lendo e deixe que a próxima história comece. E, se algum dia alguém perguntar por mim, conte minha vida com todo o esplendor e termine com um simples e modesto: “Ele morreu”."

- Mr. Magorium 

Eça de Queirós - Prosas Bárbaras

Por isso os mortos são felizesporque andam longe da forma humana, onde há o mal, pela grande natureza santa, onde só há o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na forçaBem-aventurados os que vão para debaixo do chãoporque vão para uma transfiguração sagrada.

Fichamento – Os sofrimentos do Werther, Goethe (1774)


Recortes de passagens sobre Suicídio

[p.60] Estou contente e feliz, e, portanto, sou ruim narrador.

[p.87] E eu te pergunto: deve-se exigir ao infeliz minado de incurável doença que apresse o fim do seu tormento com um golpe de punhal? O próprio dano que as forças lhe desfalca também não lhe rouba o ânimo de se libertar daquilo que o tortura? // Realmente podes responder-me com uma comparação semelhante: quem não permitirá que lhe amputem o braço cuja carcoma põe em perigo o corpo inteiro?

[p.90~91] … comecei a cismar em coisas remotas, até que, de repente, com gesto impetuoso, encostei à têmpora direita a boca da pistola. // - Werther! - bradou Alberto, arrebatando-me a arma das mãos. - Que significa isto? // - Ela não está carregada – respondi. // - Mesmo assim, que significação tem este gesto? - indagou-me impacientemente. // E continuou: // - Não posso conceber que um homem seja tão louco que se suicide. A simples representação mental desse fato me causa aborrecimento. // - Vós, homens – exclamei -, quando falais de alguma coisa, precisais acrescentar: isso é inepto, é hábil, é bom, é mau. Que significa isto? Haveis com tais palavras investigado as relações internas de uma coisa? Sabeis por isso fefinir exatamente as causas de terminantes da consumação do ato, e explicar por que ele se realizou, e por que tinha de se realizar? Se conhecêsseis as tais causas não seríeis tão precipitados em vossos julgamentos. // - Contudo – obtemperou Alberto -, hás de admitir que certas ações são condenáveis, quaisquer que sejam os motivos que os determinaram. // Encolhi os ombros como se tivesse acordado. // - Contudo, meu caro – prossegui -, existem algumas exceções a essa regra. Não se poderá negar que o roubo seja um crime, mas o desgraçado que furta para se livrar a si e aos seus de iminente limoctônia merece castigo ou compaixão? // Quem levantará a primeira pedra contra o marido que, ultrajado pela esposa fementida, a eliminou juntamente com o seu infame sedutor? Quem teria coragem de lapidar a donzela que, numa hora de arrebatamento, entre os incoercíveis êxtases do prazer, se entrega ao seu amado? As nossas próprias leis, essas frias pedantes, em certos casos se comovem, e sustam a punição. // - Isso é muito diferente – redarguiu Alberto -, pois um homem arrebatado por paixões violentas perde a ponderação, o senso, e se assimila ao temulento e ao louco. // - ah! Homens sensatos! - exclamei sorrindo. - Paixão! Ebriedade! Vesânia! Vós vos conservais tão distantes, tão indiferentes, tão alheios a tudo, vós, homens morigerados e moralizadores. Censurais o ébrio, abominais o insensato, e seguis vossa sêmita, coo um antiste, e como os fariseus agradeceis a Deus porque Ele vos fez diferente desses infelizes.

[p.91] … “Mais uma vez me embriaguei, e as minhas paixões não distaram muito da loucura, e de ambbas essas coisas não me quero arrepender. Aprendi por mim próprio como todos os homens transordinários, os que realizam algo sublime, ou que parecia impossível, foram sempre taxados de loucos ou de vinolentos” // “Também na vida comum e corriqueira é insuportável ouvir-se ante uma ação nobre, generosa e inesperada: esse homem é ébrio, é um demente. Envergonhai-vos vós, que sois sóbrios e sensatos!” // - Eis aí ainda algumas de tuas fantasias – disse Alberto. - Exageras tudo, e, seguramente, ao menos aqui, não tens razão em comparar o suicídio, de que há pouco se falava, com ações grandiosas, quando não devemos considerá-lo senão uma fraqueza. Em verdade, é mais fácil morrer do que suportar resignadamente uma vida cheia de tormentos. (…) // - Chamas a essa atitude uma covardia? Suplico-te, não te deixes guiar por aparências. Chamarás, por acaso, covarde a um povo que, cansado de gemer sob o insuportável jugo de um tirano, um dia, enfim, se levante e rebenta as cadeias opressoras? A um homem que vendo o fogo devorar sua casa, envida as forças todas do seu ser, e arrasta para longe cargas que em circustancias comuns não seria capaz sequer de convelir? A um que na fúria provocada por torpe contumélia luta com seis, e consegue vencê-los? Chamarás covardes a esses homens? // “Ah!, meu caro, se o esforço já significa fortaleza, por que a exaltação há de ser fraqueza?
[p.92~93] … A verdade é que não temos o direito de julgar uma coisa senão depois de a havermos sentido. // - A natureza humana – prossegui – tem limites. Pode suportar, até certo ponto, a alegria, a mágoa, a dor, mas sucumbe todas as vezes que elas forem ultrapassadas. A questão não é saber se um é fraco ou forte, mas se é capaz de suportar a medida dos seus sofrimentos, pouco importa que sejam físicos ou morais. A meu juízo é tão absurdo almagrar por covarde um homem que se suicida como apodar do mesmo epíteto o que sucumbe a uma febre maligna. // - Isso é paradoxal, muito paradoxal! - exclamou Alberto. // - Não tanto como se te afigura. Concordas naturalmente que se chame mortal à enfermidade que ataca o corpo de modo que lhe esgote as energias, e as ponha fora das possibilidades de, por feliz evolução, restabelecer o curso normal de sua vida. // Pois bem, meu caro, apliquemos isso ao espírito. Observa o homem em sua limitação; vê como as impressões obram em seu interior, como se fixam nele as ideias, até que enfim a paixão, recrescendo, o priva de suas forças de equilibrio, e o precipita no abismo. // É inútil que um homem sereno e prudente compreenda o estado do desventurado, e o aconselhe e exorte. É tão supervacâneo como os esforços que faria uma criatura sã para insuflar saúde nos membros de infeliz que, prostrado de doença grave, se estorce em dores, sozinho, no seu leito.

[p.94] Eis aí, Alberto, a história de muitas criaturas! Dize-me, agora, não será esse o caso de tantas enfermidades? A natureza não encontra a saída do labirinto de forças confusas e contraditórias, e a vítima refugia-se na morte. Mal haja aquele que, assistindo a isso, seja capaz de dizer: tola, se tivesse esperado, se deixasse o tempo passar, a desesperação abrandaria, e poderia noutro coração achar consolo. Seria o mesmo que dizer: louco, morreu de febre! Se tivesse aguardado que se lhe restaurassem as forças, que se aquietasse o tumulto do seu sangue comburente, tudo voltava à ordem anterior, e até hoje viveria.

[p.94~95] Não lhe parecendo clara a comparação, Alberto ainda apresentou várias objeções, entre elas a seguinte: eu lhe falara de uma mocinha ingênua. O que ele não podia compreender é que se quisesse desculpar com tais raciocínios um homem adulto, no gozo pleno da razão culta e esclarecida. // - Meu amigo, um homem é sempre um homem. A pequena parcela de razão de que é dotado bem pouca coisa é, quando a paixão estua e extravasa os limites concedidos ao ser humano.

[p.97] Pobres loucos que avaliam tudo por insignificante porque são insignificantes.

[p.99] .. ocorre-me a fábula do cavalo, que, fatigado da liberdade, deixa que lhe ponham sela e freio, e por fim é cavalgado exaustivamente.

[p.120] Já ouvi falar de certa raça nobre de cavalos que, quando muito perseguidos e acossados, por instinto, cortam com os dentes uma veia para mais desafogadamente poderem respirar. Eu também muita vez desejei abrir-me uma veia para alcançar a liberdade eterna.

[p.135] Muita vez desejei dilacerar o próprio peito, ou fazer saltar os miolos, ao sentir nitidamente como é pouco o que podemos em relação aos outros.

[p.136] deus sabe quantas vezes me deito com o desejo, e até com a esperança de não mais acordar! E, no dia crástino, de manhã, abro outra vez os olhos, e vejo o sol, e me sinto novamente desgraçado! Antes fosse um demente; assim lançaria a culpa sobre o tempo, sobre um terceiro, sobre uma empresa frustrada, e o fardo incomportável de meu desgosto me oprimiria menos.

[p.154] Finalmente o pensamento da morte se lhe tornou familiar. A sua determinação firmou-se irrevogavelmente, e disso é prova a carta ambígua que dirigiu ao seu amigo: (…) Enquanto à minha mãe, dize-lhe que reze por mim, e que lhe peço perdão dos dissabores causados por meu procedimento. Coube-me o destino de entristecer aqueles que eu devia alegrar.

[p.159] Não é por desespero, senão pela íntima convicção de que para mim tudo está acabado, que determinei sacrificar-me por ti. Sim, Carlota, por que to hei de ocultar? É necessário que um de nós três saia da vida, e prefiro que este seja eu. Oh! Minha querida! Neste coração desmoronado muita vez vagou o anseio medonho e tenebroso... assassinar o teu marido... assassinar-te a ti... suicidar-me... Então que seja assim.

[p.172] Morrer! Que significa isto? Repara que nós sonhamos ao falar da morte. Vi muitas pessoas morrer, mas a humanidade é tão limitada que o seu princípio e o seu fim não tem sentido claro para ela. Agora eu ainda me pertenço; não, a mim não, pertenço a ti, criatura idolatrada, mas, num momento, apartado, separado... talvez para sempre... para sempre...

[p.177] “Elas (as pistolas) passaram pelas tuas mãos, e lhes limpaste a poeira! Beijo estas pistolas mil vezes, pois foram tocadas por ti! Sim, espírito celeste, tu favoreces a execução do meu projeto! És tu quem me entrega o instrumento do meu exício, e a morte me vem como desejei sempre: pelas tuas mãos.

[p.180] Na vizinhança alguém viu o clarão da pólvora abrasada, e escutou o estampido, mas como tudo voltou a entrar em silêncio, não pensou mais no que viu e ouviu.