Fichamento:
A morte e o pensamento. In: Orientação Filosófica,
Marcel Conche
[p.135] A
morte é considerada um objeto possível do pensamento. Em primeiro
lugar, um objeto, em segundo, um objeto possível. Ou pensamos na
morte, ou não pensamos. O pensamento está de um lado e a morte, do
outro. […] O pensamento depara com a morte como com um objeto
doloroso, de que é preciso se afastar se quisermos ser felizes: “Os
homens, por não terem podido livrar-se da morte, da miséria, da
ignorância, permitiram-se, para tornarem-se felizes, não pensar
nela.
[p.136]
Não deixamos de pensar na morte senão deixando de pensar.
[p.136]
Mas, o que sabemos sobre a morte? Para nos limitarmos ao
discurso comum (ie, ao discurso que o homem natural liga a si mesmo)
– e, neste ponto, é preciso com Sócrates, Montaigne e Pascal, dar
razão ao discurso comum -, há três coisas que sabemos de
maneira absolutamente certa: 1º, que morremos, 2º, que não sabemos
o que isso significa, 3º, que nenhum homem jamais o saberá.
[p.136]
A. Sabemos que vamos morrer » é a verdade primeira e fundamental
que comanda toa a sua vida. Mesmo quando todo o resto é incerto,
resta a certeza de morrer. “Não há mada de certo para o homem, a
não ser, para aquele que nasceu, o morrer”, diz Crítias.
[p.137]
Aquele que tem a certeza da existência de Deus pela demonstração
de Descartes tem menos certeza dessa existência do que de sua
própria morte. As certezas que nos vêm das demonstrações não são
de modo algum as maiores. Porque as demonstrações supõem a
fiabilidade do espirito humano. Não podem, pois, engendrar uma
confiança superior à que o espirito humano tem em si mesmo. E, com
certeza, não há nenhum homem que não esteja muito mais certo de
sua própria morte do que do valor de seu espírito (de sua
capacidade de atingir a verdade).
Não
temos “demonstração” de nossa morte, mas ninguém acha que
precisa dela. Para cada um, o fato de que vai morrer é uma convicção
íntima, que está no fundo de tudo o que faz e de tudo o que diz. Se
age, se fala, é para, de um modo ou de outro, afastar a morte (por
exemplo, é para que a memória dos outros, ou a memória coletiva, o
façam sair, por um tempo, do nada).
De onde
vem essa “convicção íntima”? A convicção que cada um tem de
sua morte como de uma verdade primeira está ligada a um insuperável
sentimento de impotência. Sabemos que vamos morrer e que nada
podemos fazer. A morte é a “onipotente”, como diz Píndaro.
Qualquer que seja a nossa potência, sabemos que, diante da morte,
ela nada pode (o que, aliás, em ultima análise, torna inútil toda
aquisição de potência).
[p.138]
Podemos escapar a qualquer potência hostil particular. Mas há
aquilo a que não podemos escapar: o nosso destino. […] Digamos que
seja uma lei, a lei universal da natureza, aquela de que falam
Anaximandro e Heráclito, e que, mesmo sendo particular, associa-se
ao fato de sermos obrigados a perecer.
Ao mesmo
tempo em que nos sentimos impotentes, de uma impotência definitiva e
invencível, sabemos muito bem que, neste aspecto, nossa condição
nada tem de excepcional. Sabemos que os outros seres, e
particularmente todos os homens, estão exatamente na mesma condição.
O
sentimento, inteiramente primordial, no homem que vive próximo às
coisas essenciais, de uma fundamental igualdade entre todos os seres,
e em particular entre todos os homens – o sentimento de que a
natureza não conferiu privilégio a ninguém. A velha ideia popular
de que hierarquia alguma subsiste no momento da morte (de que a ideia
de condição humana, como condição mortal, não é senão a
repetição no plano filosófico) sempre serviu para afirmar, pela
evocação de sua igualdade perante a morte, a igualdade natural de
todos os homens, quaisquer que sejam suas diferenças sociais.
[p.139]
Nossa impotência se trata de uma impotência irremediável por
princípio, não é de modo especificamente nossa, mas de tudo o que
existe na natureza. Nosso sentimento de impotência está ligado ao
sentimento de fazer parte da natureza e de compartilhar do destino
comum. Tudo o que é “natural” encontra-se num estado de
dependência radical em relação à Lei na natureza. Esta “lei”,
desde os pensadores jônicos, é a lei do nascer e do perecer, do
devir.
A lei da
natureza associa vida e morte, não as separa. A noção de
“natureza” não significa apenas dissolução e morte, mas
também, e mesmo principalmente, vida, fecundidade, crescimento,
desenvolvimento normal de um ser, mudança orientada e ordenada.
[p.140]
Sabemos que vamos morrer, dizíamos. Em outras palavras, sabemos que
estamos na dependência de um princípio de dissolução. Esta
dependência é total. Nada do que possamos fazer irá mudar alguma
coisa. Nesse aspecto em particular, o fato de falar e pensar é,
enfim, uma atividade tão vã quanto qualquer outra.
“Sabemos”
que vamos morrer: o termo “saber” não deve ser entendido como um
saber “objetivo”, como um conhecimento, mas como um saber
constitutivo, não como um saber adquirido, mas como um saber que
sempre esteve presente, que é um só conosco mesmos. Não posso me
conceber não “sabendo” isso. Eu já não seria um ser humano,
mas um animal talvez, ou um anjo. Uma vez que sou consciente – e é
isso que me torna diferente do animal e da criança antes da
linguagem – por exemplo, quando acordo pela manhã, eu me penso, e
isso significa: eu me penso mortal. […] Pensar-me e pensar mortal
são a mesma coisa. Por conseguinte, todo pensamento se desenvolve
sobre o fundo de um saber da morte. A morte é, como tal, o horizonte
do pensamento.
[p.141]
Uma experiência irrefutável nos ensina que estamos na dependência
de um princípio de morte, e isso antes mesmo de qualquer
representação sensorial do corpo. Há nisso uma especie de
proto-experiência, uma experiência primordial da qual tiramos a
convicção totalmente primitiva de nossa mortalidade.
[p.143] O
saber que o homem tem de si mesmo como de um ser pensante destinado à
morte confunde-se com a auto-constituição humana.
B. Vamos
morrer, mas não sabemos o que isso significa.
O que é,
para um homem, “morrer”, estar “morto”? É ou não ser
aniquilado (enquanto homem, mais precisamente, enquanto ser homem,
significa também ser si)? O fato é impossível de decidir. Não
podemos, no caso, ir além de um talvez. Então, toda vida humana se
passa sob o signo de uma primordial e absoluta incerteza a respeito
de si mesma.
[p.144]
Na falta de um saber “objetivo”, não podemos falar, como há
pouco, de um saber constitutivo, ie, ligado à autoconstituição do
homem? De modo algum. Se fosse esse o caso, os homens concordariam
sobre o que é a morte. Mas não há acordo algum. Alguns estão
convencidos – ou “convictos” - da imortalidade da “alma” ou
de algum principio análogo. Assim, Kafka, que, ao universalizar sua
própria convicção, nos diz: “o homem não pode viver sem uma
confiança apoiada na existência de algo indestrutível em si
mesmo”. Os outros têm a convicção – ou a quase convicção –
contrária.
[p.145]
Então, se não sabemos “o que é” a morte, por isso mesmo, não
sabemos também “o que é” a vida, ou seja, de que maneira convém
viver para levar uma vida “humana” ou qual é o sentido da vida.
[…] Aqui, o “sentido” não é aquilo que nos faz perceber algo,
como quando se fala dos sentidos sensoriais, do “bom senso”, do
“senso moral”, nem daquilo que faz que um signo tenha uma
significação, mas aquilo que permite orientar-nos. O sentido é
princípio de orientação.
É
verdade que, de certa maneira, a exemplo dos outros seres, o homem já
está sempre orientado. Este princípio de orientação ao qual,
podemos pensar, não teríamos senão de nos confiar, é sua
natureza. O que é uma “natureza”? Análise de Aristóteles. A
natureza de um ser é a força ativa que lhe é imanente. Ela é,
para este ser, o princípio (arche) interno de seu movimento (ou
mudança) e de seu repouso. Ou: aquilo por que a mudança de um ser é
ordenada do interior, e que guia um ser para sua realização. A
natureza é o princípio do normal e do bem sucedido. Um ser natural
se modifica para atualizar suas virtualidades, para se realizar, para
se consumar.
[p.147]
Orientação – o homem já é orientado por aquilo que podemos
chamar de sua “natureza”, mas, no homem, a natureza é principio
de orientação de fato, não de direito. […] dizemos que ele já é
orientado: por sua natureza animal (as necessidades são como
orientações primitivas do comportamento), psicológica (tendências,
preferências, gostos “naturais” - porque não os escolhemos –
guiam, determinam nossas escolhas, e pouco importa se são “inatos”
ou se são o resultado, doravante quase inalterável, da
proto-história individual), social (a educação se inscreve no
indivíduo na forma de hábitos que, a exemplo de uma natureza, serão
doravante o pressuposto de seu ser: as escolhas dos pais são a
natureza dos filhos).
[p.150]
Em particular, se a morte é um aniquilamento, não é certo que a
moral ainda conserve algum sentido. Há que distinguir a moral da
ética. A ética é a teoria da totalização da vida (em outros
termos, a teoria de uma vida sensata, ou: a teoria de uma vida que
seja tal que a morte não possa torná-la absurda). Ela admite ou não
que o homem tenha deveres. Mas a moral está ligada à noção de
dever – entendendo, pelo termo dever: obrigação incondicional. A
lei moral nos obriga a ir contra nosso interesse egoísta ou pessoal
sem nada nos prometer em troca.
[p.151]
Nietzsche via um vínculo indissolúvel entre as duas noções de
moral e de além: “ingenuidade em crer que a moral continua quando
falta o Deus que a sanciona! O “além” absolutamente necessário
se quisermos manter a fé na moral”.
[p.152]
C. Vamos morrer, não sabemos o que isso significa, e homem algum
jamais o saberá.
Deus, a
imortalidade, e a vida futura: entendemos, por isso, a significação
da morte. Não existe conhecimento dela.
[p.153] o
senso comum sempre esteve certo de que nenhum homem simplesmente
poderia ter qualquer conhecimento do “além”. È por isso que ele
não se preocupa com metafísica, porque, “evidentemente, não
podemos saber nada”.
Se
entendermos por cepticismo, a doutrina que nega a possibilidade de
atingir uma verdade segura em algum domínio determinado, o
cepticismo metafísico parece muito legítimo – mas num certo nível
somente, e convém, precisamente, distinguir os níveis:
[p.154]
AA. Não sabemos qual é o “verdadeiro” sentido da vida, qual é
a “verdadeira” significação do homem, nem mesmo se é o caso de
propor tais questões e se existe uma verdade do homem, ou se o
homem, a exemplo das outras espécies, só pode ser objeto de um
conhecimento científico, entendamos, de um conhecimento de fato. […]
Enquanto houver homens, e que vão morrer, a morte será para eles
certa e, ao mesmo tempo, desconhecida em sua significação.
[p.155]
BB. Podemos opor os sistemas uns aos outros, e deles extrair uma
“lição” de cepticismo.
[p.158]
CC. O filósofo mediante visa a determinar-se em relação aos
modelos possíveis de realidade, às hipóteses filosóficas.
[p.159]
Se optarmos pelo materialismo, estaremos optando por uma concepção
de morte como cessão de ser, como aniquilamento. Mas se optarmos
pelo idealismo, optaremos ou não optaremos por uma sobrevivência
individual, uma vez que o idealismo é compatível com tal hipótese,
mas não a implica necessariamente (nem Aristóteles, nem Hegel
admitem a imortalidade pessoal da alma – e se a tivessem admitido,
teria sido apenas uma opinião dentro do sistema, considerando-se o
caráter de seu idealismo.
[p.160]
Para o pensamento filosófico, importa não deixar o sentido da morte
e da vida numa indeterminação flutuante, importa fixá-lo. Mas, na
hipótese materialista, chegamos a um sentido? Não se trata mais de
uma ausência de sentido? A réplica é que o risco de faltar o
sentido está mais do outro lado. Pq se a vida é radicalmente mortal
(se não existe vida imortal), ela é fundamentalmente finita. Então,
aquilo que tem um sentido é aquilo que leva a alguma coisa. A noção
de sentido implica a noção de termo final, de conclusão. Não há
sentido onde não há fim. O sentido exige o finito.
[p.162] O
materialismo é uma filosofia da morte. O homem individual é apenas
uma parte da humanidade, e a história humana é apenas um acidente
na crosta terrestre. Se, ao fim de um tempo mais ou menos longo, nada
restar das obras do homem, e se o sentido da vida tivesse de ser
encontrado nas obras da vontade, haveria aí uma insensatez radical,
uma vez que só se teria desejado o nada. Isso mostra que, na
hipótese materialista, o sentido da vida não pode ser encontrado
naquilo que permanece (nas obras e na produção das obras), mas só
pode estar na própria atividade como tendo seu fim em si mesma,
enquanto atividade plenamente bem executada.
Resumindo.
Ignoramos “o que é” a morte. Mas não podemos evitar pensá-la
(porque a significação da vida depende da significação da morte).
Há, pois, que distinguir o pensamento e o conhecimento. A filosofia
pensa o real, mas não o conhece. Só chega a possibilidades. A
filosofia adota uma ou outra dessas possibilidades pela meditação.
Existe a equivalência das hipóteses quanto à sua capacidade de
fixar a orientação e o sentido da vida. A escolha só pode ser
feita pela meditação, sobre o fundamento de nossas evidências
próprias e constitutivas.
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