Fichamento:
Nobert Elias – A Solidão dos Moribundos seguido de
Envelhecer e Morrer (Zahar)
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[p.7] O fim da vida humana, que chamamos de morte, pode ser
mitologizado pela ideia de uma outra vida no Hades ou no Valhalla, no
Inferno ou no Paraíso. Essa é a forma mais antiga e comum de os
humanos enfrentarem a finitude da vida. Podemos tentar evitar a ideia
da morte afastando-a de nós tanto quanto possível – encobrindo e
reprimindo a ideia indesejada – ou assumindo uma crença inabalável
em nossa própria imortalidade - “os outros morrem, eu não”: […]
Podemos encarar a morte como um fato de nossa existência; podemos
ajustar nossas vidas, e particularmente nosso comportamento em
relação às outras pessoas, à duração limitada de cada vida.
[p.8]
E isso não é só uma questão do fim efetivo da vida, do atestado
de óbito e do caixão. Muitas pessoas morrem gradualmente; adoecem,
envelhecem. As últimas horas são importantes, é claro. Mas muitas
vezes a partida começa muito antes.
Isolamento
tácito dos velhos e dos moribundos
[p.9]
O problema social da morte é especialmente difícil de resolver
porque os vivos acham difícil identificar-se com os moribundos.
[p.10]
A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas.
Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um
problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento,
a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os
animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão;
apenas eles podem prever seu próprio fim, estando cientes de que
pode ocorrer a qualquer momento e tomando precauções especiais –
como indivíduos e como grupos – para proteger-se contra a ameaça
da aniquilação.
Entre
as maiores ameaças aos humanos figuram os próprios humanos. Em nome
do objetivo de se proteger da destruição, grupos de pessoas ameaçam
outros grupos de destruição. Desde os primeiros dias, sociedades
formadas por seres humanos exibem as duas faces de Janus: pacificação
para dentro, ameaça para fora.
[p.11]
A experiência da morte é variável e específica segundo os grupos;
não importa quão natural e imutável possa parecer aos membros de
cada sociedade particular: foi aprendida. Na verdade não é a morte,
mas o conhecimento da morte que cria problemas para os seres humanos.
» uma mãe macaca pode carregar sua cria morta durante certo tempo
antes de largá-la em algum lugar e perdê-la. Nada sabe da morta, da
de sua cria ou de sua própria. Os seres humanos sabem, e assim a
morte se torna um problema para eles.
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[p.12] Seria interessante fazer um levantamento de todas as crenças
que as pessoas mantiveram ao longo dos séculos para habituar-se ao
problema da morte e sua ameaça incessante a suas vidas; e ao mesmo
tempo mostrar tudo o que fizeram umas às outras em nome de uma
crença que prometia que a morte não era um fim e que os rituais
adequados poderiam assegurar-lhes a vida eterna. Claramente não há
uma noção, por mais bizarra que seja, na qual as pessoas não
estejam preparadas para acreditar com devoção profunda, desde que
lhes dê um alívio da consciência de que um dia não existirão
mais, desde que lhes dê esperança numa forma de vida eterna.
[p.13]
Nas sociedades mais desenvolvidas, a busca de ajuda em sistemas de
crenças sobrenaturais contra o perigo e a morte se tornou menos
apaixonada; em certa medida, transferiu sua base para sistemas
seculares de crenças. […] Nos Estados-nação mais desenvolvidos,
a segurança das pessoas, sua proteção contra os golpes mais
brutais do destino como a doença ou a morte repentina, é muito
maior que anteriormente, e talvez maior que em qualquer outro estágio
do desenvolvimento da humanidade. Comparada com estágios anteriores,
a vida nessas sociedades se tornou mais previsível, ainda que
exigindo de cada indivíduo um grau mais elevado de antecipação e
controle das paixões. A expectativa de vida relativamente alta dos
indivíduos nessas sociedades é um reflexo do aumento da segurança.
» entre os cavaleiros do século XIII, um homem de quarenta anos era
visto quase como um velho; nas sociedades industriais do século XX,
ele é considerado quase jovem – com diferneças específicas de
classe.
[p.14]
Nas sociedades desenvolvidas os perigos que ameaçam as epssoas,
particularmente o da morte, são mais previsíveis, ao mesmo tempo em
que diminui a necessidade de poderes protetores supra-humanos.
[p.15]
A atitude em relação à morte e a imagem da morte em nossas
sociedades não podem ser completamente entendidas sem referência a
essa segurança relativa e à previsibilidade da vida individual - e
à expectativa de vida correspondentemente maior. A vida é mais
longa, a morte é adiada. O espetáculo da morte não é mais
corriqueiro (gladiadores, enforcamento). Ficou mais fácil esquecer a
morte no curso normal da vida. Diz-se às vezes que a morte é
“recalcada”.
3.
Se Hoje se diz que a morte é “recalcada”, o termo é
utilizado num duplo sentido. Pode tratar-se de um “recalcamento”
tanto no plano individual como no social. No primeiro caso, o termo é
utilizado no mesmo sentido de Freud. Refere-se a todo um grupo de
mecanismos psicológicos de defesa socialmente instilados pelos quais
experiências de infância excessivamente dolorosas, sobretudo
conflitos na primeira infância e a culpa e a angústia a eles
associadas, bloqueiam o acesso à memória. De maneiras indiretas e
disfarçadas, influenciam os sentimentos e o comportamento da pessoa;
mas desapareceram da memória. » Experiências e fantasias de
primeira infância também desempenham papel considerável na maneira
como as pessoas enfrentam o conhecimento de sua morte próxima.
Alguns podem olhar para sua morte com serenidade, outras com um medo
intenso e constante, muitas vezes sem expressá-lo e até mesmo sem
capacidade de expressá-lo. » Uma maneira familiar de tornar
suportáveis as angústias infantis sem ter que enfrentá-las é
imaginar-se imortal. Isso assume muitas formas. Conheço pessoas que
não são capazes de envolver-se com moribundos porque suas fantasias
compensatórias de imortalidade, que mantêm sob controle seus
terríveis medos infantis, seriam perigosamente abaladas pela
proximidade deles. Esse abalo poderia permitir que seu grande medo da
morte – da punição – penetrasse sua consciência, o que seria
insportável.
[p.16-17]
A morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte. A visão
de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas
constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte.
A
associação do medo da morte a sentimentos de culpa pode ser
encontrada em mitos antigos. No paraíso, Adão e Eva eram imortais.
Deus os condenou a morrer porque Adão, o homem, violou o mandamento
do pai divino. O sentimento de que a morte é uma punição imposta a
mulheres e homens pela figura do pai ou da mãe, ou de que depois da
morte serão punidos pelo grande pai por seus pecados, também
desempenhou papel considerável no medo humano da morte por um longo
tempo.
[p.18]
Esses problemas individuais do recalcamento da ideia da morte andam
de mãos dadas com problemas sociais específicos. Nesse plano, o
conceito de recalcamento tem um sentido diferente. No entanto, a
peculiaridade do comportamento em relação à morte que prevalece
hoje na sociedade só é percebida se comparada à de épocas
anteriores ou de outras sociedades. […] Formulando a questão
diretamente, a mudança de comportamento social referida ao falarmos
do “recalcamento” da morte nesse sentido é um aspecto do impulso
civilizador mais amplo que examinei com mais detalhes em outro lugar.
Em seu curso, todos os aspectos elementares e animais da vida humana,
que quase sem exceção significam perigo para a vida comunitária e
para o próprio indivíduo, são regulados de maneira mais
equilibrada, mais inescapável e mais diferenciada que antes pelas
regras sociais e também pela consciência.
[p.19]
Philippe Ariès » História da Morte no Ocidente »
tentou apresentar a seus leitores um retrato vívido das mudanças no
comportamento e atitudes dos povos ocidentais diante da morte. Mas
Ariès entende a história puramente como descrição. Acumula
imagens e mais imagens e assim, em amplas pinceladas, mostra a
mudança total. Isso é bom e estimulante, mas não explica nada. A
seleção de fatos de A se baseia numa opinião preconcebida. Ele
tenta transmitir sua suposição de que antigamente as pessoas
morriam serenas e calmas. É só no presente, postula, que as coisas
são diferentes. Num espírito romântico, Ariès olha com
desconfiança para o presente inglório em nome de um passado melhor.
Embora seu livro seja rico em evidências históricas, sua seleção
e interpretação dessas evidências deve ser examinada com muito
cuidado.
[p.23]
O medo da punição depois da morte e a angústia em relação à
salvação da alma se apossavam igualmente de ricos e de pobres, sem
aviso prévio. Como garantia, os príncipes sustentavam igrejas e
mosteiros; os pobres rezavam e se arrependiam.
Ariès
diz pouco sobre o medo do inferno espalhado pela Igreja. Mas há
quadros medievais que mostram o que, de acordo com as ideias da
época, esperavam pelas pessoas depois da morte. Um exemplo ainda
pode ser encontrado num cemitério famoso do final da idade média,
em Pisa. Uma figura retrata vividamente os terrores que aguardavam as
pessoas depois da morte. Mostra os anjos conduzindo as almas salvas
para a vida sem fim no paraíso, e os horríveis demônios que
atormentam os condenados ao inferno. Com tais imagens aterrorizantes
diante dos olhos, uma morte pacífica não pode ter sido fácil.
Em
resumo, a vida na sociedade medieval era mais curta; os perigos,
menos controláveis; a morte, muitas vezes mais dolorosa; o sentido
da culpa e o medo da punição depois da morte, a doutrina oficial.
Porém, em todos os casos, a participação dos outros na morte de um
indivíduo era muito mais comum. Hoje sabemos como aliviar as dores
da morte em alguns casos; angústias de culpa são mais plenamente
recalcadas e talvez dominadas. Grupos religiosos são menos capazes
de assegurar sua dominação pelo medo do inferno. Mas o envolvimento
dos outros na morte de um indivíduo diminuiu.
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[p.25] Em épocas mais antigas, morrer era uma questão muito mais
pública do que hoje. E não poderia ser diferente. Primeiro porque
era muito menos comum que as pessoas estivessem sozinhas. Freiras e
monges podem ter estado sós em suas celas, mas as pessoas comuns
viviam constantemente juntas. As moradias deixavam pouca escolha.
Nascimento e morte – como outros aspectos animais da vida humana –
eram eventos mais públicos, e portanto mais sociáveis, que hoje;
eram menos privatizados. Nada é mais característico da atitude
atual em relação à morte que a relutância dos adultos diante da
familiarização das crianças com os fatos da morte. Isso é
particularmente digno de nota como sintoma de seu recalcamento nos
planos individual e social.
[p.26~27]
Sobre as crianças
[p.29]
No registro dos sentimentos contemporâneos dificilmente
encontraremos qualquer coisa que corresponda a essa mistura de
funéreo e irreverente, essa descrição detalhada da decomposição
humana como manobra de sedução.
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[p.31] Em nossos dias, à maior exclusão possível da morte e dos
moribundos da vida social, e à ocultação dos moribundos dos
outros, particularmente das crianças, há um desconforto peculiar
sentido pelos vivos na presença dos moribundos. Muitas vezes não
sabem o que dizer. A gama das palavras disponíveis para uso nessas
ocasiões é relativamente exígua. O embaraço bloqueia as palavras.
Para os moribundos essa pode ser uma experiência amarga. Ainda
vivos, já haviam sido abandonados.
[p.32]
A convenção social fornece às pessoas umas poucas expressões
estereotipadas ou formas padronizadas de comportamento que podem
tornar mais fácil enfrentar as demandas emocionais de tal situação.
[p.37]
O afastamento dos vivos em relação aos moribundos e o silêncio que
gradualmente os envolve continuam depois que chega o fim. Isso pode
ser visto, por exemplo, no tratamento dos cadáveres e no cuidado com
as sepulturas. As duas atividades saíram das mãos da família,
parentes e amigos e passaram para especialistas remunerados. A
memória da pessoa morta pode continuar acesa; os corpos mortos e as
sepulturas perderam significação. A Pietà de Michelangelo, a mãe
em prantos com o corpo de seu filho, continua compreensível como
obra de arte, mas dificilmente imaginável como situação real.
[p.40]
Até o modo como é utilizada a expressão “os mortos” é curioso
e revelador. Dá a impressão de que as pessoas mortas em certo
sentido ainda existem não só na memória dos vivos, mas
independentemente deles. Os mortos, porém, não existem. Ou só
existem na memória dos vivos, presentes e futuros. É especialmente
para as desconhecidas gerações futuras que aqueles que estão agora
vivos se voltam com tudo o que é significativo em suas realizações
e criações. […] O medo de morrer é sem dúvida também um medo
de perda e destruição daquilo que os próprios moribundos
consideram significativo.
[p.43]
o encobrimento e o recalcamento da morte, ie, da finitude irreparável
de cada existência humana, na cosnciencia humana, são muito
antigos. Mas o modo do encobrimento mudou de maneira específica com
o correr do tempo. Em períodos anteriores, fantasias coletivas eram
o meio predominante de lidar com a noção de morte. Ainda hoje, é
claro, desempenham um importante papel. O medo de nossa própria
transitoriedade é amenizado com ajuda de uma fantasia coletiva de
vida eterna em outro lugar. Como a administração dos medos
humanos é uma das mais importantes fontes de poder das pessoas sobre
as outras, uma profusão de domínios se estabeleceu e continua a
se manter sobre essa base. Com a grande escalada da individualização
em tempos recentes, fantasias pessoais e relativamente privadas de
imortalidade destacam-se mais frequentemente da matriz coletiva e vêm
para o primeiro plano.
[p.45]
Muitas outras fantasias descobertas por Freud se agrupam em torno da
imagem da morte. Já me referi aos sentimentos de culpa, à noção
da morte como punição por más ações cometidas. É uma questão
aberta a ajuda que se pode dar aos moribundos aliviando angústias
profundas referentes a punições por ofensas imaginárias – muitas
vezes infantis. A instituição eclesiástica do perdão e da
absolvição mostra uma compreensão intuitiva da frequência com que
angústias de culpa se associam ao processo da morte, e Freud foi o
primeiro a oferecer uma explicação científica para elas.
[p.48]
a morte e um pai ou de uma mãe muitas vezes desperta desejos de
morte enterrados e esquecidos, associados a sentimentos de culpa e,
em alguns casos, ao medo da punição.
Um
manual escolar perfeitamente sensato descreve o que as pessoas dizem
às crianças quando uma pessoa morre: “Seu avô está no céu
agora” - “Sua mamãe olha para você lá do céu” - “Sua
irmãzinha agora é um anjo”. O exemplo mostra o quão firmemente
arraigada está em nossa sociedade a tendência a ocultar a finitude
irrevogável da existência humana, especialmente das crianças, pelo
uso de ideias coletivas acalentadoras, e a assegurar o encobrimento
por uma rígida censura social estrita.
[p.53]
A morte é o fim absoluto da pessoa. […] Mas ao refletir sobre tais
questões não podemos ignorar o fato de que não é a própria morte
que desperta temor e terror, mas a imagem antecipada da morte. Se eu
caísse morto aqui e agora sem qualquer dor, isso não seria
minimamente assustador para mim. Não estaria mais aqui, e,
consequentemente, não sentiria o terror. O terror e o temor são
despertados somente pela imagem da morte na consciência dos vivos.
Para os mortos não há temor nem alegria.
[p.54]
Se percebemos que o determinante na relação das pessoas com a morte
não é simplesmente o processo biológico desta, mas a ideia, em
constante evolução e específica do estágio da civilização, que
se tem dela e a atitude associada a isso, o problema sociológico da
morte aparece com contornos mais claros.
12
[p.55] A segunda característica específica das sociedades
contemporâneas aqui relevante é a experiência da morte como
estágio final de um processo natural, experiência que ganhou
significação pelo progresso na ciência médica e em medidas
práticas para elevar o padrão de higiene. A ideia de um processo
natural ordenado é característica de um estágio específico no
desenvolvimento do conhecimento e da sociedade.
[p.56]
A constatação de que a morte é inevitável está encoberta pelo
empenho em adiá-la mais e mais com ajuda da medicina e da
providência, e pela esperança de que isso talvez funcione.
[p.62]
É fácil compreender que uma pessoa que acredite viver como um ser
sem sentido morra da mesma forma.
[p.70]
Análise da novela de Tolstoi - O senhor e o homem.
[p.71]
» “a ideia da morte, a qual provavelmente o levaria nesta mesma
noite, cresceu dentro dele, mas não tinha nada de dolorosa ou
terrível. Isso porque ele tivera muitos poucos dias felizes e de
festa em sua vida, mas muitas semanas amargas, e estava cansado do
trabalho incessante.” […] Tolstoi tenta, portanto, deixar
bem-explicitada a conexão entre a maneira como uma pessoa vive e a
maneira como morre. (Coisa que Aires negligencia)
[p.72]
O modo como uma pessoa morre depende em boa medida de que ela tenha
sido capaz de formular objetivos e alcançá-los, de imaginar tarefas
e realizá-las. Depende do quanto a pessoa sente que sua vida foi
realizada e significativa – ou frustrada e sem sentido. As razões
desses sentimentos nem sempre são claras – essa também é uma
área ainda aberta à pesquisa. Mais quaisquer que sejam as razões,
podemos talvez supor que morrer é mais fácil para aqueles que
acreditam terem feito sua parte, mais difícil para os que sentem
terem fracassado na busca de seus objetivos, e especialmente difícil
para aqueles que, por mais que sua vida possa ter sido bem-sucedida,
sentem que sua maneira de morrer é em si mesma sem sentido.
Morte
significativa, morrer sem sentido – esses conceitos também abrem a
porta para problemas que, pode-se iamginar, recebem muito pouca
consideração pública.
[p.73]
As pessoas experimentam os eventos que lhes acontecem como sendo
significativos ou não, como tendo ou não sentido. É esse sentido
experimentado que está em questão. Se um homem de trinta anos, pai
de duas crianças pequenas e casado com uma mulher que ama e que
também o ama, envolve-se num acidente de estrada com um motorista
que vinha na contramão e morre, dizemos que é uma morte sem
sentido. Não porque o morto tenha deixado irrealizado um sentido
extra-humano, mas porque uma vida que não tinha qualquer relação
com a da família afetada, a vida do outro motorista, de um só
golpe, como que vindo de fora e por acaso, destruiu a vida, os
objetivos e planos, os sentimentos firmemente enraizados de um ser
humano e, portanto, algo que tinha todo o sentido para essa família.
[p.75] O conceito de solidão
tem um amplo espectro. Pode referir-se a pessoas cujo desejo de amor
em relação aos outros foi muito cedo tão ferido e perturbado que
mais tarde dificilmente podem reviver a experiência sem sentir os
golpes anteriormente recebidos, sem sentir a dor a que esse desejo as
expôs em outros tempos. Involuntariamente, pessoas assim afetadas
ocultam seus sentimentos em relação aos outros. É uma forma de
solidão. Outra forma de solidão, que é social no sentido mais
estrito, ocorre quando as pessoas vivem num lugar ou têm uma posição
que não lhes permite encontrar outras pessoas da espécie que sentem
precisar. Neste, e em muitos casos afins, o coneito de solidão
refere-se a uma pessoa que por essa ou aquela razão é deixada só.
Tais pessoas podem viver entre as outras, mas não têm significado
afetivo para elas.
O conceito de solidão inclui
também uma pessoa em meioa a muitas outras para as quais não tem
significado, para as quais não faz diferença sua existência, e que
romperam qualquer laço de sentimentos com ela. Pertencem a esse
grupo alguns pedintes e os bêbados que sentam nas soleiras e nem são
percebidos pelos passantes. As prisões e câmaras de tortura dos
ditadores são exemplos dessa espécie de solidão. O caminho para as
câmaras de gás é outro.
[p.76] A morte não é
terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr
bem. Terrível pode ser a dor dos moribundos, terrível também a
perda sofrida pelos vivos quando morre uma pessoa amada.
[p.77] É terrível quando
pessoas morrem jovens, antes que tenham sido capazes de dar um
sentido às suas vidas e de experimentar suas alegrias. É também
terrível quando homens, mulheres e crianças erram famintas pela
terra estéril onde a morte não tem pressa.
A morte não tem segredos. Não
abre portas. É o fim de uma pessoa. O que sobrevive é o que ela ou
ele deram às outras pessoas, o que permanece nas memórias alheias.
Se a humanidade desaparecer, tudo o que qualquer ser humano tenha
feito, tudo aquilo pelo qual as pessoas viveram e lutaram, incluídos
todos os sistemas de crenças seculares e sobrenaturais, torna-se sem
sentido.
Envelhecer e Morrer: Alguns
Problemas Sociológicos.
[p.86] Muitos asilos são,
portanto, desertos de solidão.
[p.90] A morte é um dos fatos
que indica que o controle humano sobre a natureza tem limites. Sem
dúvida a abrangência desse controle é em muitas áreas
extremamente grande. O que não significa que não existam limites ao
que é realizável pelos seres humanos em relação aos fatos da
natureza.
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