Fichamento:
Karl Marx – Sobre o Suicídio (Boitempo Editorial)
Um
Marx Insólito [p.14] A principal questão social discutida em
relação ao suicídio é a opressão das mulheres nas sociedades
modernas.
Ele
não introduz qualquer distinção entre seus próprios comentários
e os excertos de Peuchet, de modo que o conjunto do documento aparece
como um escrito homogêneo, assinado por KM.
Peuchet
não é Balzac, mas suas memórias apresentariam uma variante de
qualidade literária: basta lembrar que um dos seus episódios
inspirou O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
[p.16]
O suicídio é significativo, tanto para Marx como para Peuchet,
sobretudo como sintoma de uma sociedade doente, que necessita de uma
trasformação radical.
A
sociedade moderna, escreve Marx citando Peuchet,que por sua vez cita
Rousseau, é um deserto, habitado por bestas selvagens. Cada
indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa
espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como
estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de
luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos,
somente resta ao indivíduo é ser vítima ou carrasco. Eis,
portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio.
A
classificação das causas do suicídio é uma classificação dos
males da sociedade burguesa moderna, que não podem ser suprimidos –
aqui é Marx quem fala – sem uma transformação radical da
estrutura social e econômica.
[p.17]
Ao mencionar os males economicos do capitalismo, que explicam muitos
dos suicídios – os baixos salários, o desemprego, a miséria -,
Peuchet ressalta as manifestações de injustiça social que não são
diretamente econômicas, mas dizem respeito à vida privada de
indivíduos não proletários.
[p.18]
A natureza desumana da sociedade capitalista fere os indivíduos
das mais diversas origens sociais.
Quem
são as vítimas não proletárias levadas ao desespero e ao suicídio
pela sociedade burguesa? Há um setor social que toma um lugar
central tanto nos excertos de Peuchet como nos comentários de Marx:
as mulheres. Esse texto de M é uma das mais poderosas peças de
acusação à opressão contra as mulheres já publicadas. Três dos
quatro casos de suicídios mencionados nos excertos se referem a
mulheres vítimas do patriarcado ou, nas palavras de Peuchet/Marx, da
tirania familiar, uma forma de poder arbitrária que não foi
derrubada pela Revolução Francesa.
Sobre
o suicídio [p.23-24] A respeito do suicídio: o número anual
dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal
e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização
deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das
crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de
vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e
assume um caráter epidêmico. A prostituição e o latrocínio
aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a
maior causa do suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto
entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A
diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e
insensível dos moralistas.
Causas
– as doenças debilitantes, contra as quais a atual ciência é
inócua e insuficiente, as falsas amizades, os amores traídos, os
acessos de desânimo, os sofrimentos familiares, as rivalidades
sufocantes, o desgosto de uma vida monótona, um entusiasmo frustrado
e reprimido são muito seguramente razões de suicídio para pessoas
de um meio social mais abastado , e até o próprio amor à vida,
essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é
frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma
existência detestável.
Madame
de Staël – tentou demonstrar que o suicídio é uma ação
antinatural e que não se deve considerá-lo um ato de coragem;
sobretudo, ela sustentou a ideia de que é mais digno lutar contra o
desespero do que a ele sucumbir. Argumentos como esses afetam muito
pouco as almas a quem a infelicidade domina. » se são religiosas,
as pessoas especulam sobre um mundo melhor; se, ao contrário, não
creem em nada, então buscam a tranquilidade do Nada.
[p.25]
Antes de tudo, é um absurdo considerar antinatural um comportamento
que se consuma com tanta frequência; o suicídio não é, de modo
algum, antinatural, pois diariamente somos suas testemunhas. O que é
contra a natureza não acontece. Ao contrário, está na natureza de
nossa sociedade gerar muitos suicídios, ao passo que os tártaros
não se suicidam. As sociedades não geram todas, portanto, os mesmos
produtos. […]
»Não
é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão
controversa.
NFP
: para saber se o motivo que determina o indivíduo a se matar é
leviano ou não, não se pode pretender medir a sensibilidade dos
homens usando-se uma única e mesma medida; não se pode concluir
pela igualdade das sensações, tampouco pela igualdade dos
caracteres e dos temperamentos; o mesmo acontecimento provoca um
sentimento imperceptível em alguns e uma dor violenta em outros. A
felicidade e a infelicidade tem tantas maneiras de ser e de se
manifestar quantas são as diferenças entre os indivíduos e os
espíritos. Um poeta disse: O que faz tua felicidade é minha aflição
/ O prêmio de tua virtude é minha punição.
[p.26]
Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? É
que o sangue não corre do mesmo modo nas veias de gente desesperada
e nas veias dos seres frios, que se dão o lazer de proferir todo
esse palavrório estéril.
[p.27]
Acreditou-se que se poderiam conter os suicídios por meio de
penalidades injuriosas e por uma forma de infâmia, pela qual a
memória do culpado ficaria estigmatizada. O que dizer da indignidade
de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para
advogar suas causas? De resto, os infelizes se preocupam pouco com
isso e, se o suicídio é culpa de alguém, é antes de tudo as
pessoas que ficam, já que, de toda essa grande massa de pessoas, nem
sequer um indivíduo foi merecedor de que se permanecesse vivo por
ele. […] Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as
injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas
uma covardia a mais da parte dos vivos.
[p.28]
Prevenir – eu queria saber se entre suas causas determinantes não
poderiam ser encotnradas algumas cujo desfecho se poderia prevenir »
descobri que, sem uma reforma total da ordem social de nosso tempo,
todas as tentativas de mudança seriam inuteis.
A
revolução não derrubou todas as tiranias; os males que se
reprovavam nos poderes despóticos subsistem nas famílias; nelas
eles provocam crises análogas àquelas das revoluções.
[p.42]
A opinião é muito fragmentada em razão do isolamento dos homens; é
estúpida demais, depravada demais, porque cada um é estranho de si
e todos são estranhos entre si.
[p.43]
Sem dúvida, é de suma importância que esses pobres-diabos suportem
a vida, ainda que seja apenas no interesse das classes privilegiadas
deste mundo, interesse que seria arruinado pelo suicídio geral da
canalha; mas haveria outro meio de tornar suportável a existência
dessas classes, que não a injúria, o sorriso irônico e as belas
palavras?
[p.48]
Vê-se que, na ausência de algo melhor, o
suicídio é o último recurso contra os males da vida privada.
Entre as causas do
suicídio, contei muito frequentemente a exoneração de funcionários
públicos, a recusa de trabalho, a súbita queda dos salários, em
consequência de que as famílias não obtinham os meios necessários
para viver, tanto mais que a maioria delas ganha apenas para comer.
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