terça-feira, 24 de março de 2015

Karl Marx – Sobre o Suicídio

Fichamento: Karl MarxSobre o Suicídio (Boitempo Editorial)

Um Marx Insólito [p.14] A principal questão social discutida em relação ao suicídio é a opressão das mulheres nas sociedades modernas.

Ele não introduz qualquer distinção entre seus próprios comentários e os excertos de Peuchet, de modo que o conjunto do documento aparece como um escrito homogêneo, assinado por KM.

Peuchet não é Balzac, mas suas memórias apresentariam uma variante de qualidade literária: basta lembrar que um dos seus episódios inspirou O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

[p.16] O suicídio é significativo, tanto para Marx como para Peuchet, sobretudo como sintoma de uma sociedade doente, que necessita de uma trasformação radical.

A sociedade moderna, escreve Marx citando Peuchet,que por sua vez cita Rousseau, é um deserto, habitado por bestas selvagens. Cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo é ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio.

A classificação das causas do suicídio é uma classificação dos males da sociedade burguesa moderna, que não podem ser suprimidos – aqui é Marx quem fala – sem uma transformação radical da estrutura social e econômica.

[p.17] Ao mencionar os males economicos do capitalismo, que explicam muitos dos suicídios – os baixos salários, o desemprego, a miséria -, Peuchet ressalta as manifestações de injustiça social que não são diretamente econômicas, mas dizem respeito à vida privada de indivíduos não proletários.

[p.18] A natureza desumana da sociedade capitalista fere os indivíduos das mais diversas origens sociais.

Quem são as vítimas não proletárias levadas ao desespero e ao suicídio pela sociedade burguesa? Há um setor social que toma um lugar central tanto nos excertos de Peuchet como nos comentários de Marx: as mulheres. Esse texto de M é uma das mais poderosas peças de acusação à opressão contra as mulheres já publicadas. Três dos quatro casos de suicídios mencionados nos excertos se referem a mulheres vítimas do patriarcado ou, nas palavras de Peuchet/Marx, da tirania familiar, uma forma de poder arbitrária que não foi derrubada pela Revolução Francesa.

Sobre o suicídio [p.23-24] A respeito do suicídio: o número anual dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter epidêmico. A prostituição e o latrocínio aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a maior causa do suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas.

Causas – as doenças debilitantes, contra as quais a atual ciência é inócua e insuficiente, as falsas amizades, os amores traídos, os acessos de desânimo, os sofrimentos familiares, as rivalidades sufocantes, o desgosto de uma vida monótona, um entusiasmo frustrado e reprimido são muito seguramente razões de suicídio para pessoas de um meio social mais abastado , e até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma existência detestável.
Madame de Staël – tentou demonstrar que o suicídio é uma ação antinatural e que não se deve considerá-lo um ato de coragem; sobretudo, ela sustentou a ideia de que é mais digno lutar contra o desespero do que a ele sucumbir. Argumentos como esses afetam muito pouco as almas a quem a infelicidade domina. » se são religiosas, as pessoas especulam sobre um mundo melhor; se, ao contrário, não creem em nada, então buscam a tranquilidade do Nada.

[p.25] Antes de tudo, é um absurdo considerar antinatural um comportamento que se consuma com tanta frequência; o suicídio não é, de modo algum, antinatural, pois diariamente somos suas testemunhas. O que é contra a natureza não acontece. Ao contrário, está na natureza de nossa sociedade gerar muitos suicídios, ao passo que os tártaros não se suicidam. As sociedades não geram todas, portanto, os mesmos produtos. […]
»Não é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão controversa.

NFP : para saber se o motivo que determina o indivíduo a se matar é leviano ou não, não se pode pretender medir a sensibilidade dos homens usando-se uma única e mesma medida; não se pode concluir pela igualdade das sensações, tampouco pela igualdade dos caracteres e dos temperamentos; o mesmo acontecimento provoca um sentimento imperceptível em alguns e uma dor violenta em outros. A felicidade e a infelicidade tem tantas maneiras de ser e de se manifestar quantas são as diferenças entre os indivíduos e os espíritos. Um poeta disse: O que faz tua felicidade é minha aflição / O prêmio de tua virtude é minha punição.

[p.26] Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? É que o sangue não corre do mesmo modo nas veias de gente desesperada e nas veias dos seres frios, que se dão o lazer de proferir todo esse palavrório estéril.

[p.27] Acreditou-se que se poderiam conter os suicídios por meio de penalidades injuriosas e por uma forma de infâmia, pela qual a memória do culpado ficaria estigmatizada. O que dizer da indignidade de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para advogar suas causas? De resto, os infelizes se preocupam pouco com isso e, se o suicídio é culpa de alguém, é antes de tudo as pessoas que ficam, já que, de toda essa grande massa de pessoas, nem sequer um indivíduo foi merecedor de que se permanecesse vivo por ele. […] Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas uma covardia a mais da parte dos vivos.

[p.28] Prevenir – eu queria saber se entre suas causas determinantes não poderiam ser encotnradas algumas cujo desfecho se poderia prevenir » descobri que, sem uma reforma total da ordem social de nosso tempo, todas as tentativas de mudança seriam inuteis.

A revolução não derrubou todas as tiranias; os males que se reprovavam nos poderes despóticos subsistem nas famílias; nelas eles provocam crises análogas àquelas das revoluções.

[p.42] A opinião é muito fragmentada em razão do isolamento dos homens; é estúpida demais, depravada demais, porque cada um é estranho de si e todos são estranhos entre si.

[p.43] Sem dúvida, é de suma importância que esses pobres-diabos suportem a vida, ainda que seja apenas no interesse das classes privilegiadas deste mundo, interesse que seria arruinado pelo suicídio geral da canalha; mas haveria outro meio de tornar suportável a existência dessas classes, que não a injúria, o sorriso irônico e as belas palavras?


[p.48] Vê-se que, na ausência de algo melhor, o suicídio é o último recurso contra os males da vida privada. Entre as causas do suicídio, contei muito frequentemente a exoneração de funcionários públicos, a recusa de trabalho, a súbita queda dos salários, em consequência de que as famílias não obtinham os meios necessários para viver, tanto mais que a maioria delas ganha apenas para comer.

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