quinta-feira, 12 de março de 2015

Fichamento – Os sofrimentos do Werther, Goethe (1774)


Recortes de passagens sobre Suicídio

[p.60] Estou contente e feliz, e, portanto, sou ruim narrador.

[p.87] E eu te pergunto: deve-se exigir ao infeliz minado de incurável doença que apresse o fim do seu tormento com um golpe de punhal? O próprio dano que as forças lhe desfalca também não lhe rouba o ânimo de se libertar daquilo que o tortura? // Realmente podes responder-me com uma comparação semelhante: quem não permitirá que lhe amputem o braço cuja carcoma põe em perigo o corpo inteiro?

[p.90~91] … comecei a cismar em coisas remotas, até que, de repente, com gesto impetuoso, encostei à têmpora direita a boca da pistola. // - Werther! - bradou Alberto, arrebatando-me a arma das mãos. - Que significa isto? // - Ela não está carregada – respondi. // - Mesmo assim, que significação tem este gesto? - indagou-me impacientemente. // E continuou: // - Não posso conceber que um homem seja tão louco que se suicide. A simples representação mental desse fato me causa aborrecimento. // - Vós, homens – exclamei -, quando falais de alguma coisa, precisais acrescentar: isso é inepto, é hábil, é bom, é mau. Que significa isto? Haveis com tais palavras investigado as relações internas de uma coisa? Sabeis por isso fefinir exatamente as causas de terminantes da consumação do ato, e explicar por que ele se realizou, e por que tinha de se realizar? Se conhecêsseis as tais causas não seríeis tão precipitados em vossos julgamentos. // - Contudo – obtemperou Alberto -, hás de admitir que certas ações são condenáveis, quaisquer que sejam os motivos que os determinaram. // Encolhi os ombros como se tivesse acordado. // - Contudo, meu caro – prossegui -, existem algumas exceções a essa regra. Não se poderá negar que o roubo seja um crime, mas o desgraçado que furta para se livrar a si e aos seus de iminente limoctônia merece castigo ou compaixão? // Quem levantará a primeira pedra contra o marido que, ultrajado pela esposa fementida, a eliminou juntamente com o seu infame sedutor? Quem teria coragem de lapidar a donzela que, numa hora de arrebatamento, entre os incoercíveis êxtases do prazer, se entrega ao seu amado? As nossas próprias leis, essas frias pedantes, em certos casos se comovem, e sustam a punição. // - Isso é muito diferente – redarguiu Alberto -, pois um homem arrebatado por paixões violentas perde a ponderação, o senso, e se assimila ao temulento e ao louco. // - ah! Homens sensatos! - exclamei sorrindo. - Paixão! Ebriedade! Vesânia! Vós vos conservais tão distantes, tão indiferentes, tão alheios a tudo, vós, homens morigerados e moralizadores. Censurais o ébrio, abominais o insensato, e seguis vossa sêmita, coo um antiste, e como os fariseus agradeceis a Deus porque Ele vos fez diferente desses infelizes.

[p.91] … “Mais uma vez me embriaguei, e as minhas paixões não distaram muito da loucura, e de ambbas essas coisas não me quero arrepender. Aprendi por mim próprio como todos os homens transordinários, os que realizam algo sublime, ou que parecia impossível, foram sempre taxados de loucos ou de vinolentos” // “Também na vida comum e corriqueira é insuportável ouvir-se ante uma ação nobre, generosa e inesperada: esse homem é ébrio, é um demente. Envergonhai-vos vós, que sois sóbrios e sensatos!” // - Eis aí ainda algumas de tuas fantasias – disse Alberto. - Exageras tudo, e, seguramente, ao menos aqui, não tens razão em comparar o suicídio, de que há pouco se falava, com ações grandiosas, quando não devemos considerá-lo senão uma fraqueza. Em verdade, é mais fácil morrer do que suportar resignadamente uma vida cheia de tormentos. (…) // - Chamas a essa atitude uma covardia? Suplico-te, não te deixes guiar por aparências. Chamarás, por acaso, covarde a um povo que, cansado de gemer sob o insuportável jugo de um tirano, um dia, enfim, se levante e rebenta as cadeias opressoras? A um homem que vendo o fogo devorar sua casa, envida as forças todas do seu ser, e arrasta para longe cargas que em circustancias comuns não seria capaz sequer de convelir? A um que na fúria provocada por torpe contumélia luta com seis, e consegue vencê-los? Chamarás covardes a esses homens? // “Ah!, meu caro, se o esforço já significa fortaleza, por que a exaltação há de ser fraqueza?
[p.92~93] … A verdade é que não temos o direito de julgar uma coisa senão depois de a havermos sentido. // - A natureza humana – prossegui – tem limites. Pode suportar, até certo ponto, a alegria, a mágoa, a dor, mas sucumbe todas as vezes que elas forem ultrapassadas. A questão não é saber se um é fraco ou forte, mas se é capaz de suportar a medida dos seus sofrimentos, pouco importa que sejam físicos ou morais. A meu juízo é tão absurdo almagrar por covarde um homem que se suicida como apodar do mesmo epíteto o que sucumbe a uma febre maligna. // - Isso é paradoxal, muito paradoxal! - exclamou Alberto. // - Não tanto como se te afigura. Concordas naturalmente que se chame mortal à enfermidade que ataca o corpo de modo que lhe esgote as energias, e as ponha fora das possibilidades de, por feliz evolução, restabelecer o curso normal de sua vida. // Pois bem, meu caro, apliquemos isso ao espírito. Observa o homem em sua limitação; vê como as impressões obram em seu interior, como se fixam nele as ideias, até que enfim a paixão, recrescendo, o priva de suas forças de equilibrio, e o precipita no abismo. // É inútil que um homem sereno e prudente compreenda o estado do desventurado, e o aconselhe e exorte. É tão supervacâneo como os esforços que faria uma criatura sã para insuflar saúde nos membros de infeliz que, prostrado de doença grave, se estorce em dores, sozinho, no seu leito.

[p.94] Eis aí, Alberto, a história de muitas criaturas! Dize-me, agora, não será esse o caso de tantas enfermidades? A natureza não encontra a saída do labirinto de forças confusas e contraditórias, e a vítima refugia-se na morte. Mal haja aquele que, assistindo a isso, seja capaz de dizer: tola, se tivesse esperado, se deixasse o tempo passar, a desesperação abrandaria, e poderia noutro coração achar consolo. Seria o mesmo que dizer: louco, morreu de febre! Se tivesse aguardado que se lhe restaurassem as forças, que se aquietasse o tumulto do seu sangue comburente, tudo voltava à ordem anterior, e até hoje viveria.

[p.94~95] Não lhe parecendo clara a comparação, Alberto ainda apresentou várias objeções, entre elas a seguinte: eu lhe falara de uma mocinha ingênua. O que ele não podia compreender é que se quisesse desculpar com tais raciocínios um homem adulto, no gozo pleno da razão culta e esclarecida. // - Meu amigo, um homem é sempre um homem. A pequena parcela de razão de que é dotado bem pouca coisa é, quando a paixão estua e extravasa os limites concedidos ao ser humano.

[p.97] Pobres loucos que avaliam tudo por insignificante porque são insignificantes.

[p.99] .. ocorre-me a fábula do cavalo, que, fatigado da liberdade, deixa que lhe ponham sela e freio, e por fim é cavalgado exaustivamente.

[p.120] Já ouvi falar de certa raça nobre de cavalos que, quando muito perseguidos e acossados, por instinto, cortam com os dentes uma veia para mais desafogadamente poderem respirar. Eu também muita vez desejei abrir-me uma veia para alcançar a liberdade eterna.

[p.135] Muita vez desejei dilacerar o próprio peito, ou fazer saltar os miolos, ao sentir nitidamente como é pouco o que podemos em relação aos outros.

[p.136] deus sabe quantas vezes me deito com o desejo, e até com a esperança de não mais acordar! E, no dia crástino, de manhã, abro outra vez os olhos, e vejo o sol, e me sinto novamente desgraçado! Antes fosse um demente; assim lançaria a culpa sobre o tempo, sobre um terceiro, sobre uma empresa frustrada, e o fardo incomportável de meu desgosto me oprimiria menos.

[p.154] Finalmente o pensamento da morte se lhe tornou familiar. A sua determinação firmou-se irrevogavelmente, e disso é prova a carta ambígua que dirigiu ao seu amigo: (…) Enquanto à minha mãe, dize-lhe que reze por mim, e que lhe peço perdão dos dissabores causados por meu procedimento. Coube-me o destino de entristecer aqueles que eu devia alegrar.

[p.159] Não é por desespero, senão pela íntima convicção de que para mim tudo está acabado, que determinei sacrificar-me por ti. Sim, Carlota, por que to hei de ocultar? É necessário que um de nós três saia da vida, e prefiro que este seja eu. Oh! Minha querida! Neste coração desmoronado muita vez vagou o anseio medonho e tenebroso... assassinar o teu marido... assassinar-te a ti... suicidar-me... Então que seja assim.

[p.172] Morrer! Que significa isto? Repara que nós sonhamos ao falar da morte. Vi muitas pessoas morrer, mas a humanidade é tão limitada que o seu princípio e o seu fim não tem sentido claro para ela. Agora eu ainda me pertenço; não, a mim não, pertenço a ti, criatura idolatrada, mas, num momento, apartado, separado... talvez para sempre... para sempre...

[p.177] “Elas (as pistolas) passaram pelas tuas mãos, e lhes limpaste a poeira! Beijo estas pistolas mil vezes, pois foram tocadas por ti! Sim, espírito celeste, tu favoreces a execução do meu projeto! És tu quem me entrega o instrumento do meu exício, e a morte me vem como desejei sempre: pelas tuas mãos.

[p.180] Na vizinhança alguém viu o clarão da pólvora abrasada, e escutou o estampido, mas como tudo voltou a entrar em silêncio, não pensou mais no que viu e ouviu.



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